Emídio Cardozo da Silva, agricultor e morador do Morro do Leão

Este registro, feito provavelmente em meados da década de 1930 ou até mesmo 1940, mostra Emídio Cardozo da Silva, antigo morador da localidade do Morro do Leão. Em outra foto, postada aqui anos atrás, temos ama anotação no verso da fotografia que aponta que ele nasceu em 24 de agosto de 1919, o que indica que este registro seja deste período acima.

Assim como na outra foto, o fato de posar com bois mostra que o jovem já lidava diretamente com o trabalho na roça, ajudando os pais. Esse era o cotidiano da maioria das famílias do interior de Parobé — tanto no Morro do Leão quanto no Poço Fundo e arredores —, em uma época em que a economia local girava em torno da agricultura, com destaque para as plantações de mandioca e a produção de farinha nas atafonas.

Grande parte dessa produção rural era escoada para outras cidades através da linha férrea, inaugurada em Parobé no dia 15 de agosto de 1903. A chegada do trem transformou o pequeno povoado, que então contava com pouquíssimos habitantes: substituiu o antigo predomínio do transporte fluvial, que antes dependia principalmente da rota por Santa Cristina do Pinhal, e deu um novo ritmo ao desenvolvimento local.

Sobre as origens familiares de nosso personagem, é muito provável que Emídio tivesse parentesco direto com Cândido Cardozo da Silva, patriarca de uma tradicional família do Morro do Leão e já retratado aqui no projeto. Pelos registros encontrados no site FamilySearch, sabemos que Cândido nasceu em 1862, sendo filho de Alexandre Cardoso da Silva (1825–1920) e Roberia Maria Joaquina da Silva (1827–1920), casal que teve outros oito filhos.

Cândido casou-se em 1879 com Rosalina Angélica da Silva, nascida em Santa Cristina do Pinhal em 13 de agosto de 1864 (e batizada em 27 de junho de 1865), filha de Laurindo Antônio da Silva (nascido em 1840) e Anna Angélica Pereira (nascida em 1838). Dessa união nasceram oito filhos entre 1880 e 1895: Idalina Angélica da Silva (1880), João Cândido Cardoso da Silva (1880–1957), Generosa Silva (1881), Maria Cândida da Silva (1885), Maria Bertolina da Silva (1887), Maria Cardoso da Silva (1890), Antônio Cândido Cardoso da Silva (1891) e Catharina Zozima da Silva (1895).

Pela cronologia das gerações, há uma forte possibilidade de que Emídio fosse neto do casal — talvez filho de João Cândido ou de Antônio Cândido. Para resolver este quebra cabeça histórico, somente o tempo irá nos revelar mais informações.

Ligações familiares & raízes:

A investigação sobre as possíveis origens de Emídio também abre espaço para uma conexão genealógica mais ampla. Caso se confirme o parentesco entre ele e Cândido Cardozo da Silva, será possível situar essa família em uma rede de relações que, segundo os levantamentos genealógicos já realizados, alcança a ancestralidade do meu bisavô, Irineu Ferreira Leite Sobrinho (1878–1923), de Dom Pedrito. De acordo com essa pesquisa familiar, Cândido era primo de oitavo grau de Irineu. Ou seja, compartilhavam o mesmo antepassado.

A ligação remonta à ascendência atribuída ao meu avô da 11ª geração, o capitão Fernão de Camargo “o Tigre”, conhecido pelo apelido de “o Tigre”, figura associada à história política de São Paulo no século XVII. De acordo com a obra Genealogia Paulistana, a família Camargo teve origem em Jusepe de Camargo (também documentado como José Ortiz de Camargo), natural de Castela, filho de Francisco de Camargo e Gabriela Ortiz, também castelhanos.

Seus avós paternos foram Luiz Dias de Camargo e Beatriz de la Peña. Jusepe chegou a São Paulo no final do século XVI, onde casou-se com Leonor Domingues, que faleceu em 1630, deixando testamento como viúva. Leonor era filha de Domingos Luiz, conhecido como “o Carvoeiro” e cavaleiro fidalgo, e de Anna Camacho. Assim, Jusepe tornou-se cunhado de Amador Bueno da Ribeira, casado com Bernarda Luiz, filha de Domingos Luiz.

Essa família, incluindo a descendência de Amador Bueno e outras ligadas aos Carvoeiros, compartilha a ancestralidade com o famoso João Ramalho, casado com Bartira M’bicy, filha do cacique Tibiriçá. Jusepe de Camargo foi uma figura de autoridade em São Paulo, onde atuou como juiz ordinário em 1611. Seus descendentes, como o próprio Fernão, como veremos a seguir, mantiveram o prestígio do patriarca e influenciaram a política da região por muitos anos, rivalizando com a igualmente nobre e influente família dos Pires.

Fernão era casado com Mariana do Prado (1610–1688), cujo casamento foi realizado em 1627 em São Paulo. Desta união nasceram 15 filhos, dentre eles meu avô da 10ª geração, o Capitão Fernando de Camargo Ortiz (maio de 1628 – 30 de agosto de 1690), irmão de Ana Maria de Camargo, casada com o capitão Manoel da Costa Duarte, que segundo a Genealogia Paulistana, “ocupou o posto de capitão comandante da leva destinada ao descobrimento de minas de ouro e outros metais nos sertões do Sul em 1679”.

De acordo com obras como Genealogia Paulistana e Nobiliarquia Paulistana, Fernando de Camargo, como também era chamado, liderou, em março de 1635, ao lado de Luís Dias Leme “a expedição exploradora e batedora chamada “bandeira de Aracambi”, que partiu de Santos em numerosos barcos para a região do Tape, no sul do Brasil. Regressou após alguns meses, trazendo grande número de índios aprisionados. Esta bandeira iniciou a invasão das reduções jesuíticas do Rio Grande do Sul pelos paulistas. Em 1640, Fernando foi o líder do movimento que culminou com a expulsão dos jesuítas da capitania de São Paulo. Fernando, juntamente com seu irmão, José Ortiz de Camargo, foi o chefe do “partido dos Camargos”, que se levantou contra o “partido dos Pires” (liderado por João Pires e seu genro Francisco Nunes de Siqueira, o “Redentor da Pátria”).

Por meio de uma expedição de sua bandeira, Fernão e seu irmão José Ortiz estabeleceram diversos pontos de apoio para tropeiros, incluindo um local chamado “Campinas do Mato Grosso”. Esse ponto de parada serviria como base para o surgimento da futura Vila e, posteriormente, da cidade de Campinas.

O historiador e genealogista Pedro Taques de Almeida Pais Leme relata ainda que Fernão foi figura central no conflito entre as famílias Pires e Camargo, após ter assassinado, com um golpe de espada (ou adaga), Pedro Taques — um parente homônimo do próprio historiador — no largo da Matriz da Vila de São Paulo.

De acordo com Guaracy de Castro Nogueira, os Camargos eram conhecidos por seu temperamento radical e violento, atribuídos ao seu sangue espanhol. Pedro Taques de Almeida Leme, em sua obra Nobiliarquia, relata melhor este episódio que evidencia essa violência (2, págs. 67 e 68). Em 1640, Pedro Taques de Almeida, homônimo do genealogista e casado com Dona Potência Leite, irmã de Fernão Dias Paes, teve uma grave desavença com Fernando de Camargo, apelidado de “o Tigre”. Embora o motivo não tenha sido detalhado, a rixa foi intensa, resultando em um confronto com adagas e espadas no pátio da matriz de São Paulo, atual Largo da Sé. Ambos quase se mataram, e seus partidários, das famílias Pires e Camargo, também entraram em conflito, resultando em várias mortes. Apesar de aparentar calma após o embate, no ano seguinte, em 1641, o Tigre assassinou seu rival com um golpe de adaga, no mesmo local.

O fato é que, segundo Guaracy de Castro Nogueira, “os Camargos e os Pires estiveram sempre em atritos, jamais conseguindo viver em paz e harmonia, se confrontando na luta política, em busca do poder. Se ocorreram pequenos intervalos de quietude, maiores foram os períodos de motins e desordens”.

Passadas décadas e inúmeros acontecimentos depois, Fernão, em 1674, solicitou a El-Rei a confirmação da provisão que estabelecia as normas para as eleições da câmara da vila de São Paulo e da capitania de São Vicente. Em 24 de dezembro de 1675, foi registrada a aprovação desse pedido, definindo a forma de eleição dos oficiais da câmara de São Paulo. O requerimento havia sido aprovado no ano anterior pelo Conselho Ultramarino e referendado pelo Príncipe Regente, Dom Pedro II (1648 – 1706), conhecido como “o Pacífico”, Rei de Portugal e dos Algarves de 1683 até sua morte em 1705. Antes de ascender ao trono, serviu como regente em nome de seu irmão, o rei Afonso VI, desde 1668.

Conclusão:

Ao longo do tempo, já compartilhei aqui registros de outros moradores da região do Morro do Leão — ou ao menos pessoas ligadas a ela — como o agricultor Luis Manoel dos Santos. Registros como este nos ajudam a entender as raízes das famílias pioneiras de Parobé e a importância de manter viva a memória da nossa gente.

Fontes:

FAMILYSEARCH. Cândido Cardoso da Silva. [S. l.], [s. d.]. Disponível em: https://www.familysearch.org/tree/person/details/K48V-NXX. Acesso em: 19 out. 2026.

FRANCO, Francisco de Assis Carvalho. Dicionário de bandeirantes e sertanistas do Brasil: séculos XVI, XVII, XVIII. São Paulo: Comissão do IV Centenário da Cidade de São Paulo, 1954.

LEITE, Maicon. Emídio Cardozo da Silva, morador do Morro do Leão. Trilhando a História de Parobé, Parobé, 14 jan. 2024. Disponível em: https://historiadeparobe.com.br/2024/01/14/emidio-cardozo-da-silva-morador-do-morro-do-leao/. Acesso em: 19 out. 2026.

LEME, Luiz Gonzaga da Silva. Genealogia paulistana. São Paulo: Duprat & Comp., 1903. v. 1 (Título Camargos). Disponível em: https://archive.org/details/GenealogiaPaulistana/Genealogia_paulistana_V/page/n17/mode/2up. Acesso em: 19 out. 2026.

LEME, Pedro Taques de Almeida Paes. Nobiliarquia paulistana histórica e genealógica. 5. ed. Belo Horizonte: Itatiaia; São Paulo: Edusp, 1980. v. 1-2, p. 67-68. (Coleção Reconquista do Brasil, v. 57).

NOGUEIRA, Guaracy de Castro. Estudos sobre as famílias Pires e Camargo. São Paulo: ASBRAP, [s. d.].

Crédito da foto:

Acervo do Museu Histórico de Parobé – digitalizada/editada/colorizada por Maicon Leite

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