As irmãs Norcy e Nair Maciel da Rosa e as raízes da família

I. O Núcleo Familiar e o Registro Histórico

A fotografia que ilustra esta matéria é datada de 1947 e documenta a infância/juventude das irmãs Norcy e Nair. O momento foi registrado em frente à residência da família, que ainda existe, estabelecida próxima ao leito do Rio Paranhana, antigo Rio Santa Maria, logo antes da ponte da estrada velha, entre Parobé e Taquara. Esta imagem atua como o ponto de partida para uma breve reconstituição de uma parte da extensa linhagem formada por seus pais, Aristides Maciel da Rosa e Maria Antonieta Mosmann.

O matrimônio de Aristides e Maria Antonieta foi oficializado em 1926. Dessa união, formou-se uma família composta por seis filhos:

  • Protásio Maciel da Rosa (1929–1989)
  • Getúlio Maciel da Rosa (falecido em 2019)
  • Nair Maciel da Rosa (falecida em 2020)
  • Sérgio Maciel da Rosa (falecido em 2021)
  • Luis Maciel da Rosa (nascido em 1935, vivo)
  • Norcy Maciel da Rosa (1945–2018)

Os registros civis detalham as origens diretas do casal. Aristides Maciel da Rosa nasceu em 26 de maio de 1902. Naquela data, seu pai, Francisco Maciel da Rosa, contava com 26 anos, e sua mãe, Maria Emília da Rosa, com 33 anos. Aristides faleceu em 2 de março de 1962, aos 59 anos. Maria Antonieta Mosmann nasceu em 11 de novembro de 1905, época em que o pai, João Mosmann, tinha 54 anos, e a mãe, Rita Pires de Souza, 45 anos. Maria Antonieta viveu até os 80 anos, falecendo em 11 de junho de 1986.

II. O legado Bandeirante Paulista: A Família Antunes Maciel

A ancestralidade paterna dessa linhagem remonta a uma família de forte tradição sertanista oriunda de São Paulo. Uma das figuras centrais deste ramo é Antônio Antunes Maciel (1685–1745), casado com Maria Paes Domingues (entre 1677 e 1730), eneavós (antepassados da nona geração) das irmãs que ilustram a foto.

Antônio foi um destacado bandeirante de Sorocaba que, ao lado de seus irmãos João e Gabriel Antunes Maciel, integrou a bandeira paulista que alcançou a região de Cuiabá em 1718, marco inicial da ocupação aurífera da região, especificamente no Rio Caxipó Mirim, na confluência com o Rio Botuca. Com a patente de Alferes e, posteriormente, Coronel, Antônio participou das campanhas militares contra os Aripononé e, sob o comando do Mestre de Campos Manoel Rodrigues de Carvalho, enfrentou os Payaguás. Em 1733, recebeu a patente do Conde de Sarzedas para comandar as companhias de Sorocaba.

Sua filha, Maria Moreira Maciel, nasceu em 1710, em Sorocaba. Em 22 de junho de 1727, ela casou-se em primeiras núpcias com Manuel dos Santos Roballo, união da qual nasceram pelo menos oito filhos (três homens e cinco mulheres). Após ficar viúva, Maria Moreira Maciel passou a integrar o movimento migratório paulista em direção ao sul da América Portuguesa, acompanhada de seus filhos e de suas irmãs Ana, Joana e Rita.

III. A chegada ao Sul e a fundação de Jaguaruna: A Família Magalhães

No sul do Brasil, a história cruza-se com o imigrante português João de Magalhães, conhecido como “O Velho”. Nascido entre 1688 e 1694 na paróquia de São João de Airão, em Braga, Portugal, ele era filho de João de Magalhães Fernandes e Maria Veloso. Deste ramo da família, ele foi o pioneiro a se aventurar por estas terras.

João de Magalhães consolidou-se como um homem de grande prestígio, atuando como Capitão de Auxiliares, Juiz Ordinário e membro da Ordem Terceira de São Francisco. Ele teve um papel vital no povoamento de Jaguaruna, região utilizada desde o início do século XVIII pelos lagunenses para expandir o território português. Em 1725, comandando uma frota de trinta homens — a maioria escravos seus e de seu sogro —, ele participou do reconhecimento e ocupação do litoral sul catarinense. Como recompensa por seus serviços, em 1731, recebeu do rei Dom João V a sesmaria de Garopaba do Sul. Esta propriedade media uma légua e meia de frente para o mar (cerca de 9.900 metros) e estendia-se da Lagoa da Garopaba até o Arroio Corrente e o Rio Jaguaruna, sendo utilizada prioritariamente para a criação de gado.

Seu primeiro casamento ocorreu com Ana de Brito, filha do capitão-mor da vila de Laguna, Francisco de Brito Peixoto. Dessa união, nasceram os filhos Don Tomás Juan, María, Francisca Veloso, Teodósia, María, Joao “O Moço”, Francisco, Lucas e José.

IV. A Aliança Magalhães-Maciel e a migração para Viamão

Após o falecimento de Ana de Brito por volta de 1738, João de Magalhães “O Velho” contraiu segundas núpcias, por volta de 1746, em Laguna, com a recém-chegada viúva paulista Maria Moreira Maciel. O casal teve a seguinte descendência registrada:

  • Andreza Veloso Maciel (1747–1785)
  • Bernardo José de Magalhães (1752–1774 – heptavô das irmãs)
  • Benedita Veloso de Magalhães (nascida em 1755)

A aliança entre as famílias tornou-se dupla quando João de Magalhães “O Moço”, enteado de Maria Moreira Maciel, casou-se na vila de Sorocaba com Joana Garcia Maciel, irmã de sua madrasta, no ano de 1741. Por volta de 1750, a parentela migrou para Viamão, onde João “O Velho” atuou como um dos primeiros sesmeiros e povoadores dos Campos de Viamão. A família estabeleceu vastas propriedades numa região caracterizada pelos constantes conflitos ibéricos de demarcação de fronteiras.

V. O Escândalo de Viamão e a Dispersão

A consolidação em Viamão foi abalada por graves turbulências internas. Em 1757, durante uma das ausências de João de Magalhães “O Moço”, sua esposa Joana Garcia Maciel foi alvo de um processo eclesiástico movido pelo vigário José Carlos da Silva, sendo acusada de condutas consideradas escandalosas segundo os padrões morais da época. Ao final do processo, Joana Garcia Maciel foi condenada ao banimento da freguesia de Viamão, vindo a falecer posteriormente no presídio de Rio Pardo, em 1766.

O episódio forçou parte da família a dispersar-se em direção ao interior do Continente, fixando-se no distrito de Cachoeira, em Rio Pardo. Foi nesta mesma cidade que a matriarca Maria Moreira Maciel faleceu décadas depois, em 15 de fevereiro de 1788, aos 78 anos. O patriarca João de Magalhães “O Velho” faleceu em Viamão no dia 13 de janeiro de 1771.

VI. A Ramificação Platina: De Laguna a Santa Fé

Enquanto o ramo sul-rio-grandense forjava seu patrimônio militar e fundiário, outra ramificação estabeleceu-se na bacia do Rio da Prata. Os registros históricos detalham a trajetória de “Juan Magallanes” (João de Magalhães), identificado por diferentes estudos genealógicos como provável filho natural de João de Magalhães.

Juan Magallanes emigrou de Laguna para Santa Fé, na Argentina, por volta de 1738. Afastando-se das campanhas militares, ele prosperou como comerciante. Ao contrair matrimônio com María de la Cruz, integrou-se à alta elite santafesina, estabelecendo vínculos com linhagens de prestígio, como os “Marcos de Mendoza” e os “Gaete”. A forte posição social no Prata foi ratificada pelo matrimônio de suas filhas:

  • Juana Maria: Casou-se com o bracarense Antonio Texeira, que alcançou a posição de Alcalde da Hermandad do Paraná.
  • Francisca Xaviera: Casou-se com um militar espanhol, descendente de fidalgos de Santander, que chegou ao posto de Comandante Militar de Concepción, no Paraguai, determinando a expansão definitiva desse ramo.

Em documentos de 1776, Juan atua como testemunha em alianças matrimoniais da elite e, em seu assento de óbito, ele e sua esposa ostentam os tratamentos de “Don” e “Doña”.

VII. A Fixação no Vale do Paranhana e o Cenário de 1947

A fotografia de 1947, que retrata a juventude de Norcy e Nair em frente à residência da família, às margens do Rio Paranhana, constitui um testemunho da história dessa extensa linhagem na região. Após as intensas migrações coloniais que cruzaram de Laguna a Viamão e as dispersões forçadas até Rio Pardo no século XVIII, os descendentes dessas famílias estabeleceram raízes no Vale do Paranhana. A residência da família de Aristides e Maria Antonieta, situada estrategicamente logo antes da ponte da estrada velha entre Parobé e Taquara, e próxima aos trilhos do trem, inseria-se no cotidiano de uma via que foi crucial para a comunicação e o desenvolvimento regional na primeira metade do século XX. Naquele local, observando as águas do antigo Rio Santa Maria correrem, as irmãs cresceram testemunhando as transformações de um território que une a grandiosidade das antigas rotas de desbravadores e tropeiros à rica memória local, fechando um ciclo de migrações que começou há mais de dois séculos.

VIII. Cruzamentos Genealógicos

A linhagem de Aristides e Maria Antonieta apresenta diversos cruzamentos genealógicos com meus antepassados. Dentre eles, Aristides Maciel da Rosa era primo sétimo de Francisca Coutinho da Rocha (nascida em 1860). Francisca foi casada com Antônio Candido Leite (1854–1914), meus trisavós, ambos naturais do município de Dom Pedrito. Pelo lado materno, Maria Antonieta Mosmann era prima em segundo grau de Alberto Leopoldo Streit (1900–1969), que foi casado com Theolinda Schnorr (1901–1973), bisavós de minha esposa.

Crédito da foto:

Acervo de Deise Hartz dos Santos – Digitalizada/editada/colorizada por Maicon Leite

Fontes:

DUARTE, M. Genealogia dos Oliveira Duarte. [S. l.: s. n.], [s. d.].

FAMILYSEARCH. Aristides Maciel da Rosa. Árvore Familiar. [S. l.], [s. d.]. Disponível em: https://www.familysearch.org/pt/tree/person/details/GLVG-Y28. Acesso em: 2 jul. 2026.

GARCÍA, M. R.; QUEVEDO, R. Notas genealógicas sobre a descendência platina de Tomás Juan de Magalhaes. [S. l.: s. n.], [s. d.].

GENEANET. Capitán de Auxiliares Joao de Magalhaes (el Viejo). Árvore genealógica de jlamas. [S. l.], [s. d.]. Disponível em: https://gw.geneanet.org/jlamas?lang=de&n=de+magalhaes+el+viejo&p=capitan+de+auxiliares+joao. Acesso em: 2 jul. 2026.

JAGUARUNA. Prefeitura Municipal de Jaguaruna. Jaguaruna, [s. d.]. Disponível em: https://jaguaruna.sc.gov.br/pagina-8721. Acesso em: 2 jul. 2026.

PAULA, D. C. de. Família, guerra, política, negócios e fronteira: os Antunes Maciel desde o século XVIII aos inícios do século XX. 2019. 212 f. Tese (Doutorado em História) – Instituto de Filosofia e Ciências Humanas, Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Porto Alegre, 2019.

SILVA LEME, L. G. da. Genealogia Paulistana. São Paulo: Duprat & Comp., 1903. v. 1, p. 133.

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