No garimpo documental do projeto Streit & Leite — Genealogia & Pesquisa Histórica, a investigação vai muito além de catalogar datas de nascimento e óbito. Ao mapear as árvores genealógicas de famílias, as profissões registradas em documentos, inventários e assentos paroquiais revelam como a economia da província evoluiu. Da sobrevivência na mata virgem à revolução industrial do Vale do Sinos e Paranhana, apresentamos cinco ofícios comuns em pesquisas realizadas pelo projeto, com exemplos reais resgatados dos nossos acervos:
Lavradores e Agricultores (Ackerer)
A engrenagem fundamental da imigração. Famílias que deixaram o Hunsrück e a Renânia-Palatinado a partir de 1824 para construir uma nova vida. Trabalhavam a terra cultivando mandioca, arroz e milho, muitas vezes erguendo e operando atafonas (engenhos de farinha) que abasteciam as colônias isoladas. Abaixo, alguns exemplos de agricultores localizados em árvores genealógicas criadas pela Streit & Leite:
Johann Daniel Kirsch: O imigrante foi documentado nos registros como “agricultor e negociante”. Ao chegar no Brasil em 1846, adquiriu meia colônia de terras na margem oriental do Rio Santa Maria, desbravando o que logo se tornaria a imensa Taquara do Mundo Novo.
João Streit Filho: Representando a expansão territorial interna, o seu atestado de óbito de 1930 crava sua profissão definitiva como “agricultor”. Ele deixou a velha colônia de Dois Irmãos para abrir novas frentes nas encostas de Arroio Grande e Entrepelado.
Os Artífices: Sapateiros, Carpinteiros e Pedreiros
As mãos que ergueram a colônia. A sobrevivência nas picadas isoladas exigia habilidades manuais trazidas da Europa, essenciais para construir moradias, fabricar ferramentas e produzir roupas e calçados antes da era industrial. No idioma alemão, estes ofícios refletem profundamente a tradição e a especialização das antigas corporações de ofício da Europa e são seguidamente vistos em documentos antigos. Para os sapateiros, utilizava-se “Schuhmacher” (literalmente, “fabricante de sapatos”), termo que historicamente designava o artesão focado na criação de calçados novos e duráveis.
Os carpinteiros são traduzidos como “Zimmerleute”, um termo plural tradicional par “Zimmermann”, que remonta à Idade Média e se refere especificamente aos mestres construtores de estruturas de madeira e telhados, essenciais no início da colonização.
Por fim, os pedreiros são representados por “Maurer”, os especialistas na arte de assentar pedras e tijolos para erguer paredes sólidas (“Mauer”), simbolizando a base estrutural e a permanência física da nova colônia. Com certeza você já deve ter visto sobrenomes com estes termos, correto? Um nome conhecido é João Jorge Maurer, esposo de Jacobina Mentz, líderes dos Muckers.
Johann Jacob Mossmann (Sapateiro): Registrado na Alemanha como sapateiro e cultivador, esse ofício salvou sua família. Após o brigue Actif ser abandonado na costa do Nordeste em 1828, ele utilizou suas ferramentas de sapateiro no Recife para improvisar reparos e conseguir moedas para o sustento em Pernambuco, antes de vir para o Rio Grande do Sul.
Georg Daniel Schmidt (Sapateiro): Imigrante chegado em 1846, os registros apontam que ele “dividia seus ofícios entre sapateiro e agricultor” para garantir a sobrevivência no Mundo Novo.
Johann Christian Heinrich Scheffel e Jacob Schmidt (Carpinteiros): Scheffel, vindo da Vestfália em 1825, utilizou seus conhecimentos em Fachwerk (técnica de enxaimel) para construir as primeiras moradias tradicionais em Campo Bom e Lomba Grande. Jacob Schmidt também consta nos registros originais do navio Frederik Hendrik (1825) como carpinteiro.
Johann Peter Jost (Pedreiro): Imigrante do Saarland (1857), foi o mestre de obras responsável por erguer a histórica “Casa de Pedra” de Igrejinha, um marco arquitetônico da colonização.
Militares e Combatentes
A força de defesa e expansão. A presença do Império nas fronteiras sulinas dependia do recrutamento de soldados mercenários europeus e da convocação de colonos, que frequentemente deixavam suas lavouras para lutar e derramar sangue nas guerras platinas e revoluções internas, como a Guerra dos Farrapos e a Guerra do Paraguai.
Johann Jakob Strauss: Embarcou na galera dinamarquesa Creole em 1826 como soldado mercenário, listado no 27º Batalhão de Caçadores, recrutado pelo Major Schaeffer para servir às tropas do Império Brasileiro na Guerra da Cisplatina.
Friedrich Heinrich Müller: Atuou ativamente na Guerra dos Farrapos ao lado das forças Legalistas Imperiais, alcançando a patente de Segundo Sargento na Cia. de Caçadores Voluntários Alemães. Em 1841, durante uma emboscada farroupilha, foi baleado na mão e na perna direita, sobrevivendo com sequelas severas de locomoção.
Johann Philipp Hartz e Wilhelm Hartz (filho): Obrigados a lutar na Guerra do Paraguai, os dois irmãos perderam a vida: Wilhelm tombou na 1ª Batalha de Tuiuti em 1866, e Johann faleceu de cólera num hospital militar na Argentina em 1867.
Comerciantes e Industriais
Os motores da transformação econômica. Com a abertura de estradas e a chegada do trem, os antigos entrepostos de secos e molhados tornaram-se o coração financeiro dos vales, dando origem, décadas mais tarde, às primeiras fábricas manufatureiras da região.
Jacob Schmidt (Comerciante): O outrora carpinteiro tornou-se um próspero comerciante em Sapiranga, construindo uma grande casa de negócios em 1845. Por parar de negociar com chegados de Jacobina Mentz, seu comércio foi brutalmente atacado e incendiado pelos Muckers em junho de 1874.
Armindo Helmuth Schmidt e Arno Theno Schmidt (Industriais): Frutos de uma geração que herdou o antigo Handwerk (trabalho manual) e o transformou em capital, os irmãos deixaram o ofício tradicional para se associarem aos irmãos Saft. Em 14 de fevereiro de 1944, fundaram a “Saft, Schmidt & Cia. Ltda” (futura Calçados Starsax), a pioneira e primeira fábrica de calçados de Parobé, inaugurando a era industrial no então 3º distrito de Taquara.
Lideranças Civis e Administração da Justiça
Os organizadores da sociedade. O crescimento populacional e urbano das antigas picadas exigia organização política e resolução de conflitos, dando origem às primeiras autoridades civis, juízes de paz e administradores locais de origem teuto-brasileira.
Philipp Renner: Além de administrar suas lavouras e trabalhar como artífice no conserto de máquinas de costura e instrumentos musicais, assumiu forte liderança política no regime imperial. Atuou como Inspetor do Terceiro Distrito e Vereador em São Leopoldo, tendo a distinção de presidir a última sessão da câmara em 31 de dezembro de 1889, dia em que o órgão foi extinto para a instauração da República.
Friedrich Heinrich Müller: Após sobreviver à Revolução Farroupilha com graves ferimentos, a sua experiência militar e liderança lhe garantiram a nomeação para o cargo de Juiz de Paz em Taquara do Mundo Novo, administrando a organização civil da nova colônia.
Os ofícios destes antepassados, geralmente de origem alemã ou de seus descendentes, não eram apenas meios de sustento; eram algumas das peças fundamentais que faziam o Rio Grande do Sul funcionar, ao lado de tantas outras culturas e povos que formaram nosso Estado.
A Streit & Leite decifra manuscritos, documentos, jornais antigos e diversas fontes para devolver a você a história completa das suas raízes. Quer descobrir como as antigas gerações ganhavam a vida e construíam o nosso passado? Entre em contato e solicite um orçamento de pesquisa genealógica completa.
Abaixo, algumas fontes utilizadas durante as pesquisas:
ENGELMANN, Erni Guilherme. A saga dos alemães: do Hunsrück para Santa Maria do Mundo Novo. v. 1. [S.l.]: Ed. do Autor, 2004.
HUNSCHE, Carlos Henrique. O biênio 1824/1825 da imigração e colonização alemã no Rio Grande do Sul (Província de São Pedro). Porto Alegre: A Nação, 1975.
MEMORIAL DO TEMPO. Família Mossmann – 7ª parte. Memorial do Tempo, abr. 2013. Disponível em: https://memorialdotempo.blogspot.com/2013/04/familia-mossmann-7-parte-ramo-maria.html.
TRAMONTINI, Marcos Justo. A organização social dos imigrantes: a colônia de São Leopoldo na fase pioneira, 1824-1850. São Leopoldo: Editora Unisinos, 2000.
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