Esta foto tirada no ano de 1966 eterniza os irmãos Gerson Ricardo Feltes — que ganhou o apelido de Fritz ainda no hospital, batizado assim pela própria parteira — e Antonio Carlos Feltes, o Tonho (o bebê), junto a uma bicicleta Ghering na calçada da Rua Vera Cruz, esquina com a Odorico Mosmann, número 321. O cenário da fotografia é a residência de Enio Feltes, carinhosamente conhecido como o Seu Gê, irmão do nosso já conhecido Eraldo Feltes, e de Dona Iva Hugentobler. A partir dessa memória urbana, desdobra-se uma extensa árvore genealógica que resgata a chegada de diversas famílias pioneiras da região, costurando séculos de história.
A origem dos Feltes
O pioneiro da linhagem Feltes em solo brasileiro foi Mathias Feltes, nascido em 23 de outubro de 1789, em Noswendel, distrito situado na cidade de Wadern, no atual estado alemão do Saarland. Ele era filho de Mathias Feltes, nascido em 1764, e de Maria Barbara Barth, nascida na cidade de Trier em 21 de janeiro de 1761.
Seus pais casaram-se em 29 de janeiro de 1789 e tiveram pelo menos três filhos e três filhas, sendo registrados na Europa os irmãos do pioneiro: Jakob Feltes, que viveu entre 1793 e 1831, e Katharina Feltes, nascida no ano de 1797. O pai de Mathias faleceu em 11 de fevereiro de 1807, e sua mãe em 3 de fevereiro de 1802. A ascendência da família está documentada até os anos 1600, englobando os avós do imigrante, Mathias Feltes e Anna Maria Betzold, além de Johann Peter Barth e Anna Maria Welker.
A trajetória familiar do imigrante Mathias começou a se desenhar com o seu primeiro casamento, celebrado em 12 de fevereiro de 1811 na localidade de Lockweiler, no distrito de Merzig, com Barbara Dambacher, nascida em 1781. Desta união, nasceram os filhos Johannes, em 1811, e Jakob, que viveu entre 1813 e 1889. Com o falecimento precoce de sua primeira esposa, Mathias casou-se novamente em 6 de julho de 1814, também em Lockweiler, com Barbara Knapp, nascida em 1787.
O registro paroquial da época, lavrado em latim, atesta o estado civil de ambos, descrevendo-os como “Mathias Feltes viduus” e “Barbara Knap vidua”. Juntos, formaram uma grande família e registraram o nascimento de Katharina (1815-1815), Mathias, Maria (1819-1863), Nikolaus (1821-1898), Anna Barbara (1821-1881), Anna (1825-1910), além de Magdalena e Maria N. Feltes. O registro paroquial, redigido em latim, identifica os noivos como Mathias Feltes viduus e Barbara Knap vidua, termos que significam, respectivamente, viúvo e viúva. A anotação confirma que ambos haviam perdido seus primeiros cônjuges antes do casamento de 1814.

A imigração para o Brasil
A decisão de deixar a Europa e buscar uma nova vida consolidou-se em 1828. A família integrou o 26º grupo de emigrantes rumo ao Brasil, embarcando no imponente veleiro trimastro Olbers. Tratava-se de um marco na navegação da época: era a maior embarcação a realizar essa rota até então e o primeiro navio projetado especificamente para o transporte de passageiros. A viagem teve início no porto de Bremen, em 26 de setembro de 1828, e a chegada ao Rio de Janeiro ocorreu meses depois, em 17 de dezembro.
Segundo informações levantadas no site da Paróquia Martin Luther, a bordo, viajavam 874 pessoas distribuídas em 152 famílias, formando o maior contingente a se destinar à Colônia Alemã de São Leopoldo. Após a etapa no Rio de Janeiro, a família Feltes desembarcou oficialmente em solo gaúcho em 03 de março de 1829. A lista de entrada documenta a composição familiar naquele momento: o patriarca Mathias, com 40 anos, a esposa Barbara, com 42, e os filhos Mathias (12 anos), Maria e “Nicolao” (ambos com 9), Barbara (8), Anna (4) e a pequena Magdalena, com apenas seis meses de vida.
Um detalhe histórico curioso envolve os registros dessa viagem marcante. Ainda de acordo com a Paróquia Martin Luther, a lista oficial de passageiros do Olbers acabou se perdendo, tendo sido extraviada ou destruída durante os eventos da Primeira Guerra Mundial. No entanto, o resgate da identidade dessas famílias foi possível graças a um minucioso trabalho de pesquisa. Historiadores cruzaram os registros de imigrantes chegados a São Leopoldo com uma lista de hóspedes que, em agosto de 1828, aguardavam o embarque na estalagem “Vor dem Bunten Thore”, na cidade de Bremen.
Foi por meio desse esforço investigativo que se confirmou a presença não apenas dos Feltes, mas de dezenas de outras linhagens que moldaram a demografia da região. Dentre elas, destacam-se sobrenomes como Bauer, Barth, Becker, Berwanger, Dillenburg, Frölich, Fuchs, Kirsch, Krämer, Ludwig, Matte, Müller, Ostermann, Peters, Petry, Reichert, Streit e Weber. Na mesma embarcação viajou Johann Wilhelm Maurer, avô de João Jorge Maurer, que viria a protagonizar um capítulo intenso da história regional ao casar-se com Jacobina Mentz, a líder do episódio dos Muckers.
Ao chegar, a família estabeleceu-se na região e Mathias ganhou terras na localidade de Quatro Colônias, na região da atual Campo Bom e arredores. Em terras gaúchas, a família prosperou e fincou suas raízes. Um dos documentos que comprovam essa continuidade ocorreu em 18 de julho de 1843, na capela de Nossa Senhora da Conceição da Colônia de São Leopoldo, quando a filha Maria Feltes se casou com Jacob Christ. Mathias Feltes viveu na região colonial até o dia 11 de maio de 1858, quando faleceu aos 68 anos, na localidade também conhecida como Picada 14 Colônias (São José do Hortêncio). Ele foi sepultado no município de São José do Hortêncio, encerrando sua jornada.
Família Timm
Outra conexão importante da genealogia ocorre através da família Timm, integrante da primeira leva da imigração alemã ao Rio Grande do Sul. Os pioneiros da família chegaram a São Leopoldo na data fundadora de 25 de julho de 1824, após realizarem a travessia como passageiros do navio Anna Louise e do bergantim São Joaquim.
A conexão entre as linhagens ocorreu através do casamento de Jose Antonio Feltes, nascido em 1870, com Maria Olga Timm, nascida em 1874. A documentação aponta que Maria Olga era filha de Johann Jacob Timm, nascido em 20 de setembro de 1824, em Pinneberg, na região de Schleswig-Holstein, então território da Prússia, e falecido em 25 de setembro de 1914, e de Anna Catharina Schweitzer, nascida em 1832. Johann Jacob, cujos registros também indicam residência na localidade de Padre Eterno, atual Sapiranga, no ano de 1888, possui sua ascendência rastreada na Europa passando por seus pais, Johann Henrich Timm (1785-1866) e Ann Magrethe Jensdr Kofod, até chegar aos seus avós, Hans Heinrich Timm (1754-1828) e Catharina Margaretha (nascida em 1758).
Familia Hugentobler
A árvore genealógica dos irmãos Feltes ganha novos contornos com a incorporação da família Hugentobler, representada pela figura de Dona Iva, esposa de Enio Feltes e mãe de Tonho e Fritz. Os levantamentos familiares traçam a ascendência de Iva Hugentobler passando por seus pais, Avelino Adelino Hugentobler e Erna Velina Bauer, e chegando aos avós, Carl Eugen Hugentobler e Karolina Mathilde Kellermann. A linhagem retrocede a imigrantes nascidos no final do século XVIII, como August Hugentobler e Friederich Hugentobler, cujos registros apontam origens na região de Neuenburg, na Suíça, raízes que vieram a se fundir com os descendentes alemães no sul do Brasil.
Ligações familiares
As raízes dessas famílias pioneiras se entrelaçam profundamente ao longo das gerações, formando a base da demografia local. Enio Feltes, por exemplo, é primo em quarto grau da minha avó Erna Hartz (1911-1980), tendo como ancestrais em comum os imigrantes Hans Jakob Schweitzer (1778–1856) e Anne Elisabeth Christine Engels (1782–1856). Outra ramificação genealógica documentada ocorre através dos bisavós de Enio, José Antônio Feltes e Maria Olga Timm. Maria Olga era prima em segundo grau da minha trisavó Maria Pauline Haag (1861–1938), casada com meu também trisavô Johann Konrad Hartz (1849–1923), evidenciando a proximidade histórica dos núcleos familiares da época. Sendo assim, os irmãos Feltes são primos em quinto grau da minha mãe, Loiva Custódio Leite, filha de Erna Hartz e Alfredo Henrique Haag.
Essas ligações documentam a forte proximidade histórica dos núcleos familiares. Desde os colonizadores que chegaram em 1824, passando pelos passageiros do Olbers em 1829 e as terras de Quatro Colônias, até as uniões subsequentes, a ancestralidade desses nomes serve como um retrato fiel da própria formação populacional, demográfica e cultural da região.
Crédito da foto:
Foto do acervo de Antônio Feltes
Fontes:
FAMILYSEARCH. Avelino Adelino Hugentobler. Árvore Familiar. [S. l.], [2026]. Disponível em: https://www.familysearch.org/pt/tree/person/K2VV-QR2. Acesso em: 29 ago. 2026.
FAMILYSEARCH. Johann Henrich Timm. Árvore Familiar. [S. l.], [2026]. Disponível em: https://www.familysearch.org/pt/tree/person/KCSM-SP1. Acesso em: 29 ago. 2026.
FAMILYSEARCH. Jose Antonio Feltes. Árvore Familiar. [S. l.], [2026]. Disponível em: https://www.familysearch.org/pt/tree/person/9NL8-F8Z. Acesso em: 29 ago. 2026.
FAMILYSEARCH. Mathias Feltes. Árvore Familiar. [S. l.], [2026]. Disponível em: https://www.familysearch.org/pt/tree/person/details/9Z86-D79. Acesso em: 29 ago. 2026.
FEY, Ademar Felipe. Imigração Alemã no Brasil: Navios e Passageiros Anos 1824 a 1830. 6. ed. Caxias do Sul: Ademar Felipe Fey, 2023.
IGREJA CATÓLICA. Registro de casamento de Jacob Christ e Maria Feldes. Capela de Nossa Senhora da Conceição, Colônia de São Leopoldo, RS, 18 jul. 1843. 1 fotografia do manuscrito original. Disponível no Family Search
IGREJA CATÓLICA. Registro de casamento de Mathias Feltes e Barbara Knapp. Igreja Sucursal de Lockweiler, Alemanha, 6 jul. 1814. 1 fotografia do manuscrito original. Disponível no Family Search.
PARÓQUIA MARTIN LUTHER. Relação de veleiros transatlânticos & das famílias. Porto Alegre, [s. d.]. Disponível em: http://www.mluther.org.br/Imigracao/relacao-veleiros.htm. Acesso em: 29 ago. 2026.
ROSA, Gilson Justino da. Imigrantes Alemães (1824-1853). Porto Alegre: Edições EST, 2005.
SÃO LEOPOLDO. Colônia Alemã. Livro de registro de entrada de imigrantes. São Leopoldo, RS, 3 mar. 1829. 1 fotografia do manuscrito original. Disponível no Family Search.
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