Na primeira parte deste dossiê, resgatamos as origens do Capitão Pedro Werlang, filho de colonos alemães de Santa Cruz do Sul, que registrou em um raro diário de campanha a sua brutal trajetória no Exército Imperial. Acompanhamos seu batismo de fogo no cerco a Paysandú, durante a Guerra do Uruguai, e sua subsequente marcha para os horrores da Guerra do Paraguai ao lado dos Voluntários da Pátria.
Sobrevivendo a epidemias de cólera, bombardeios e carnificinas como a histórica Batalha de Tuiuti e o letal assalto à Vila Pilar, os escritos frios e objetivos de Werlang documentaram a implacável guerra de trincheiras e o cerco estratégico a Humaitá, estabelecendo o cenário de tensão e atrito contínuo que prepararia o Exército para a fase mais aguda do conflito.
Então, agora nesta segunda parte, veremos mais um pouco deste relato, que mergulha em uma das fases mais intensas do conflito na Bacia do Prata. Afinal, qual é a ligação direta entre o Capitão Pedro Werlang e a cidade de Parobé? A resposta reside nas profundas teias da ancestralidade e da ocupação territorial gaúcha: Pedro é tio-avô da trisavó de Ary Sady Selzlein (nascido na Fazenda Pires), unindo linhagens que fincaram raízes em diferentes municípios da região, incluindo a própria Parobé. Assim, ao acompanharmos os passos deste oficial nas trincheiras paraguaias, estamos rastreando o sangue, a memória e a herança histórica de famílias que moldaram, de alguma forma, a identidade do nosso estado.
Para situar o leitor sobre a origem desse vasto material, é importante destacar que a reconstrução desta trajetória foi fundamentada em um cruzamento de fontes primárias e historiográficas. A espinha dorsal deste dossiê é o próprio diário de campanha do Capitão Pedro Werlang, escrito originalmente em alemão nas trincheiras e traduzido décadas depois pelo jornalista Harry Edgar Menchen, sendo publicado no jornal Gazeta do Sul (1959) e na revista A Defesa Nacional (1966).
Para complementar esse relato cru e dar a ele a devida dimensão temporal e genealógica, as informações foram cruzadas com documentos oficiais do Império (como a sua Carta Patente de Capitão de 1877), registros genealógicos da plataforma FamilySearch — que atestam sua ligação direta com a família Selzlein —, além de obras de referência militar, como os estudos do historiador Cláudio Moreira Bento sobre a participação dos colonos alemães nos conflitos do Sul. O resultado é um texto baseado nesse conjunto de informações e, portanto, está sujeito a possíveis erros, imprecisões ou divergências, principalmente no que se refere a números, datas e determinados acontecimentos.
Lembrando, o objetivo aqui é puramente documental e historiográfico: resgatar a trajetória e a experiência humana do Capitão Pedro Werlang através de seus próprios escritos e outras fontes, sem qualquer intenção de enaltecer as ações de uma guerra que resultou em uma catástrofe demográfica sem precedentes na América do Sul. Estudos demográficos apresentam estimativas consideravelmente diferentes entre si, mas convergem quanto à dimensão extraordinária das perdas paraguaias, decorrentes tanto dos combates quanto da fome, das epidemias e das condições extremas impostas pela guerra.
Essa brutalidade inigualável atingiu seu ápice de crueldade no esgotamento das fileiras paraguaias, cujo maior e mais trágico símbolo é a emblemática Batalha de Acosta Ñu, em 1869. Com o exército regular quase aniquilado, Solano López mobilizou milhares de crianças e adolescentes para a frente de combate. O embate contra as forças imperiais resultou em uma carnificina que, segundo o historiador Francisco Doratioto (2002), reflete o desespero final do governo paraguaio e a brutalidade de um conflito assimétrico.
Essa tragédia alimentou uma forte memória nacionalista no país vizinho — onde as vítimas são lembradas como os “Niños Mártires” —, gerando uma ferida histórica e narrativas de massacre que causam tensão na Bacia do Prata até os dias de hoje. O relato de Werlang, portanto, deve ser lido como o testemunho cru de um sobrevivente imerso na lama e na pólvora de seu tempo, e não como uma celebração a um conflito cujas cicatrizes jamais se fecharam completamente. Para parte da historiografia, a destruição demográfica e social sofrida pelo Paraguai pode ser interpretada à luz do conceito de genocídio, embora essa interpretação permaneça objeto de intenso debate entre historiadores.
Confira o texto sobre Ary:
Confira a primeira parte do dossiê:
A Tensão em Estância São Solano e o Assalto a Tuiuti
A guerra não permitia trégua. Em 28 de setembro de 1867, a 2ª Divisão mudou seu acampamento de Tuiucuê para os arredores da Estância São Solano. A crueza do front logo atingiria de forma direta os Voluntários da Pátria. No dia 21 de outubro, a 2ª Divisão marchou sobre Humaitá, estabelecendo um cerco a cerca de três quartos de légua do forte. A cavalaria do inimigo mantinha a rotina diária de conduzir seus cavalos para pastar no campo aberto. Apercebendo-se da presença brasileira com a progressão da luz do dia, aproximadamente 2.000 paraguaios aprontaram-se para o combate.
A manobra brasileira foi fulminante: a cavalaria montou sem demora e investiu para barrar-lhes o passo, enquanto a 6ª Divisão mantinha-se estrategicamente oculta entre os macegais no flanco direito. As forças de Pedro tocaram o adversário sob grande mortandade, empurrando-os até a frente das próprias trincheiras de Humaitá. O avanço audacioso, contudo, forçou um recuo urgente devido aos inúmeros canhões da fortificação que abriram cerrado fogo. A 1ª Divisão, que estava oculta na ala esquerda, socorreu a força atacante tarde demais. O saldo da investida resultou em 150 praças e 8 oficiais paraguaios aprisionados, com baixas inimigas estimadas entre 700 a 800 mortos.
As fileiras brasileiras contabilizaram um imenso número de feridos e a dolorosa morte do voluntário de Santa Cruz, Frederico Zinn, que perdeu a vida no campo e cujos despojos foram enterrados junto à Estância São Solano. O luto não paralisou a cavalaria. À meia-noite de 29 de outubro, as 1ª e 2ª Divisões de Cavalaria, escoltadas pelo 6º Batalhão de Infantaria e quatro canhões, subiram além do Arroio Fundo. Em meio a matos e banhadais, derrotaram um contingente de 150 a 200 inimigos que havia se entrincheirado no Potreiro da Ovelha. No dia imediato, as forças brasileiras apresaram cerca de 1.000 reses e cavalos que se encontravam dispersos no campo.
A odisseia continuou. Por volta da meia-noite de 2 de novembro, as tropas sob o comando do Brigadeiro João Manoel Mena Barreto partiram do Potreiro da Ovelha. Ao raiar do dia, alcançaram Taji, localidade a cerca de duas léguas de distância, onde derrotaram uma guarnição de infantaria composta por 200 homens. Em desespero, muitos soldados inimigos atiraram-se ao Rio Paraguai na tentativa de alcançar três navios de guerra ancorados, mas sem sucesso. Estas belonaves iniciaram um bombardeio cruel à curta distância contra os brasileiros, forçando a artilharia imperial a assestar rapidamente quatro bocas-de-fogo.
Em menos de meia hora, duas embarcações inimigas foram postas a pique, e a terceira fugiu ostentando graves avarias em uma de suas rodas de propulsão. A ação custou 40 mortos e feridos às forças brasileiras, enquanto o inimigo sofreu pesadas baixas mortais e deixou 25 prisioneiros. Na manhã seguinte, em botes, os brasileiros abordaram um dos navios que não submergira totalmente, deparando-se com 53 corpos, entre os quais uma mulher e uma menina de três anos, concluindo-se serem familiares do comandante.
De acordo com Werlang, o desgaste chegou ao ápice na madrugada de 3 de novembro, quando os paraguaios lançaram uma massiva ofensiva contra Tuiuti com 8.000 a 10.000 homens de infantaria e cavalaria. O flanco direito, guarnecido pelos aliados argentinos, foi duramente atingido. O 2º Exército, sob a liderança do Visconde de Pôrto Alegre, foi surpreendido e percebeu a dimensão do assalto apenas quando a primeira trincheira já havia caído, respondendo imediatamente com cerrado fogo de bateria. O inimigo invadiu a zona de comércio do acampamento, iniciando uma onda de pilhagens e incêndios. Cumprindo ordens do Visconde, o quarteirão foi assaltado de baioneta calada pelos brasileiros, resultando em um combate atroz onde centenas de paraguaios foram mortos em meio às barricas de açúcar e bebidas.
Acuados pelo incêndio, os invasores abandonaram a área comercial e investiram contra o quartel-general. Graças às metralhas de lanterneta das bem providas baterias imperiais, o avanço foi contido, obrigando o inimigo a buscar refúgio junto ao local da guarda, protegido por trincheiras altas. No entanto, ao se verem sob duplo fogo cruzado das baterias, os paraguaios abandonaram a posição e dividiram-se: um grupo fez nova tentativa frustrada contra o quartel-general, enquanto o outro retrocedeu rumo a Passo da Pátria. Este último grupo foi interceptado no meio do caminho, repelido de volta a Tuiuti e, finalmente, forçado à retirada definitiva.
O balanço dessas jornadas foi aterrador. As fileiras brasileiras perderam quase a totalidade do 4º Batalhão de Artilharia, amargando a captura do Comandante Augusto Ernesto da Cunha Matos, diversos oficiais, a banda de música e importantes canhões, incluindo uma peça de aço forjado de 32 libras. Segundo o relato utilizado por Werlang, o confronto teria cobrado cerca de 3.000 mortos do lado inimigo, enquanto as forças imperiais teriam sofrido número semelhante de baixas entre mortos e feridos. O próprio Visconde de Pôrto Alegre restou ferido ao longo das seis horas de embate, e o estado-maior sofreu a perda de diversos oficiais.
As operações militares prosseguiam em direção às posições que protegiam Humaitá. Ao anoitecer de 18 de fevereiro de 1868, a 2ª Divisão de Cavalaria e uma divisão de infantaria marcharam em direção à trincheira Estabelecimento (ou Reduto do Estabelecimento), situada meia légua acima de Humaitá. Às 3 horas da madrugada do dia 19, seis encouraçados de ferro da esquadra brasileira lograram transpor Humaitá sob intenso fogo inimigo. Ao raiar do sol, as fortificações de Estabelecimento foram assaltadas. Após duas horas de embate, os brasileiros sagraram-se senhores da posição, capturando mais de oito canhões e grande quantidade de foguetões.

Enquanto as forças terrestres nas quais Pedro combatia sangravam para tomar a trincheira, a Esquadra Imperial protagonizava um dos episódios mais notáveis da história naval da Guerra do Paraguai. Segundo aponta o historiador naval Luiz Edmundo Brígido Bittencourt, a divisão encarregada de forçar a passagem era composta por três encouraçados (Baía, Barroso e Tamandaré) e três monitores-encouraçados recém-chegados do Rio de Janeiro (Alagoas, Pará e Rio Grande). O objetivo dessa manobra conjunta, arquitetada pelo Marquês de Caxias, era estrangular as comunicações de Humaitá com Assunção, completando o bloqueio para impedir a fuga de Solano López e vencer a praça-forte pela fome.
Para superar a fortaleza considerada inexpugnável, Bittencourt detalha que os navios brasileiros precisaram romper pesadas correntes de ferro atravessadas no rio e suportar o fogo de 98 canhões da frente fluvial inimiga. O episódio atingiu contornos épicos com o monitor Alagoas: após ter seus cabos de reboque rompidos por um tiro paraguaio, a embarcação comandada pelo Primeiro-Tenente Maurity desceu o rio à matroca e precisou forçar a passagem repetidas vezes. O pequeno monitor sobreviveu a cerca de 200 impactos de artilharia pesada e ainda repeliu, com força letal, uma tentativa de abordagem feita por 40 canoas repletas de combatentes inimigos. O sucesso naval completou o cerco terrestre, e os estrondos contínuos daquela madrugada certamente ecoaram pelas trincheiras de lama enquanto Pedro Werlang e seus companheiros participavam das operações terrestres destinadas a completar o cerco de Humaitá.
Duas belonaves inimigas causaram grandes dificuldades e acabaram escapando ilesas, evidenciando a carência de artilheiros adestrados capazes de alvejar embarcações a mil passos. Segundo o relato utilizado, a ação custou cerca de 800 mortos e feridos às forças brasileiras, enquanto a guarnição inimiga foi virtualmente aniquilada. Na mesma manhã, a vanguarda aliada avançou e capturou uma torre de observação e um fortim provido de canhões nos arredores de Tuiucuê. Enquanto o sangue escorria nas trincheiras, a política cobrava seu preço na retaguarda: naquele mesmo dia 19 de fevereiro, o General Venancio Flores era assassinado em Montevidéu.
Crédito das images:
WIKIMEDIA COMMONS. Guerra do Paraguai – Voluntários da Pátria.JPG. [S. l.], [s. d.]. Disponível em: https://pt.wikipedia.org/wiki/Ficheiro:Guerra_do_Paraguai_-_Volunt%C3%A1rios_da_P%C3%A1tria.JPG. Acesso em: 18 ago. 2026.
RELEMBRE os santa-cruzenses que foram voluntários da pátria na Guerra do Paraguai. Portal Gaz, Santa Cruz do Sul, [s. d.]. Disponível em: https://www.gaz.com.br/relembre-os-santa-cruzenses-que-foram-voluntarios-da-patria-na-guerra-do-paraguai/. Acesso em: 3 ago. 2026.
Fontes:
BENTO, Cláudio Moreira. Bicentenário, em 2024, do início da colonização alemã do Rio Grande do Sul e a projeção na história militar dos imigrantes alemães e seus descendentes. Resende: AHIMTB, 2023. Livro digital. Disponível em: http://www.ahimtb.org.br. Acesso em: 3 ago. 2026.
BITTENCOURT, Luiz Edmundo Brígido. A Marinha do Brasil na Guerra do Paraguai não foi só Riachuelo. Revista Marítima Brasileira, [S. l.], 4º trim., p. 9-24, 2007. Arquivo em formato PDF.
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CITYBRAZIL. História: Santa Cruz do Sul – RS. CityBrazil, [2009]. Arquivo da Web. Disponível em: https://web.archive.org/web/20090628221307/http://www.citybrazil.com.br/rs/stacruzsul/historia.php. Acesso em: 3 ago. 2026.
DORATIOTO, Francisco. Maldita Guerra: Nova história da Guerra do Paraguai. São Paulo: Companhia das Letras, 2002.
FAMILYSEARCH. Capitão Pedro Werlang (LHTM-HWY). Árvore Familiar, [S. l.], [s. d.]. Disponível em: https://www.familysearch.org/pt/tree/person/details/LHTM-HWY. Acesso em: 3 ago. 2026.
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O TRIBUTO de sangue dos colonisadores allemães á Patria Brasileira. Máscara, [S. l., s. d.]. Recorte de revista digitalizado.
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WERLANG, Pedro. Diário de Campanha do Capitão Pedro Werlang. Tradução: Harry Edgar Menchen. A Defesa Nacional, Rio de Janeiro, ano 52, n. 609, p. 7-30, set./out. 1966. Disponível em https://pt.scribd.com/document/677573414/Diario-de-campanha-do-Capitao-Pedro-Werlang.
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