O ponto de partida deste resgate histórico é uma manhã de domingo de 1972. Um encontro casual na subida para o Bairro Guarani, na antiga Avenida São Paulo (atual Avenida Artuino Arsand), em Parobé, reuniu um grupo de amigos que convergia para o mesmo destino: a sede da Sociedade Esportiva Recreativa Guarani, clube onde a maior parte daquela turma jogava.
A fotografia eternizou o encontro e registrou, da esquerda para a direita: Januário, Carlinhos (in memoriam), Sargentão, Solano, João “Pitoco”, Osmar (in memoriam), Elísio Costa, Tição (in memoriam), Almerindo Nunes, Joel (in memoriam) e Olivério (in memoriam, pai de Solano e Sargentão).
Entre os presentes, destaca-se João Virgílio Pereira Dias, o “João Pitoco”. Nascido em 15 de dezembro de 1951, seguiu carreira na segurança pública e aposentou-se como policial. Sua biografia serve de elo para uma extensa e documentada rede genealógica que atravessa séculos da formação histórica do Rio Grande do Sul e abarca antepassados açorianos, alemães e franceses.
João Virgílio é fruto do matrimônio entre Juvenal Pereira Dias (1914–1979) e Maria José da Costa Dias (1917–1988). O casamento civil de seus pais foi oficializado em 27 de fevereiro de 1937, na localidade de Caboclos, área então pertencente ao vasto território de Taquara e que hoje integra o município de Três Coroas.
As raízes maternas: linhagens Souza Pinto e Costa
Pelo lado materno, os avós de João eram Claudino José da Costa (nascido em 1896) e Avelina de Sousa Pinto (1898–1983). O casal, domiciliado em Caboclos, constituiu uma família de nove filhos, entre eles Maria José, mãe de João, Dalila e Waldemar. A pesquisa genealógica expande esse ramo materno ao documentar os bisavós de João: Justino de Sousa Pinto (1881–1955) e Maria José de Souza. Aprofundando ainda mais a linhagem, os registros identificam, no século XIX, os trisavós maternos como Thomaz de Souza Pinto e Clarinha Rosa da Conceição.
As raízes paternas: Pereira Dias, Duprat e Schneider
Os avós paternos de João eram Virgílio Pereira Dias e Maria Silvina Schneider. A união de Virgílio e Maria Silvina, oficializada em Três Coroas, representa o cruzamento de ramificações históricas e imigratórias distintas. A ascendência de Virgílio revela a presença da família Duprat na região. Seus pais, bisavós de João, foram Narciso Pereira Dias e Margarida Duprat. O matrimônio de Narciso e Margarida foi celebrado na localidade de Santa Cristina do Pinhal, no atual município de Parobé.
A linhagem recua até os trisavós paternos, o imigrante francês Pierre Duprat e sua esposa, Maria Clara de Freitas. Pierre nasceu por volta de 1830, em Sauveterre-de-Béarn, nos Pirenéus Atlânticos, região da atual Nova Aquitânia, na França. Filho de Gabriel Duprat e Marguerite Iratchet, estabeleceu-se no Brasil e constituiu família com Maria Clara, com quem teve pelo menos quatro filhos e seis filhas. Faleceu na cidade de Jaguarão, no extremo sul do Rio Grande do Sul.
A trajetória do bisavô Narciso Pereira Dias também revela profundas raízes portuguesas. Narciso era filho de Polydoro Pereira Dias e Francisca Maria da Conceição. De uma forma resumida, a árvore genealógica segue por gerações, passando por Antônio Pereira Dias e alcançando Manoel Pereira Dias e Maria Joaquina de Jesus, casados em Viamão.
O pai de Manoel foi Matheus Pereira Dias, o primeiro dessa linha a nascer na Vila do Topo, na Ilha de São Jorge, no Arquipélago dos Açores. Matheus era filho do imigrante Amaro Dias de Sousa, batizado em 1692, que cruzou o Oceano Atlântico rumo ao Brasil colonial. Os registros rastreiam a linhagem insular até António Marques Jordão e Bárbara Gatto, casados em 1644.
Por outro ramo, a ascendência da avó paterna, Maria Silvina, está profundamente ligada aos primórdios da colonização alemã no estado. Ela era filha de Peter Schneider (1841–1922) e Anna Margaretha Elisabeth Pfeiffer (nascida em 1850), casados em 1867, na Picada 48, em Ivoti. A linhagem germânica remonta aos trisavós Johann Jacob Schneider (1809–1879) e Susanna Margaretha Charlotte (1813–1887). Johann Jacob chegou ao Brasil acompanhado dos pais, o imigrante Johann Peter Schneider (1782–1854) e Philipina Catharina Schülermann (1787–1876), que deixaram a Vila de Wieselbach, emigrando para o Brasil através do conhecido veleiro trimastro Olbers. Os Schneider teriam chegado a São Leopoldo em 9 de maio de 1829.
Ligações familiares: cruzamentos históricos
A extensa árvore genealógica de João Virgílio Pereira Dias revela cruzamentos diretos com a história da minha própria família, conectando linhagens tanto pela matriz germânica quanto pela luso-açoriana. Pela raiz alemã, a partir da ascendência de sua avó paterna, Maria Silvina Schneider, João “Pitoco” seria primo de 12º grau de Alberto Leopoldo Streit, casado com Theolinda Schnorr. Alberto é bisavô da minha esposa, Bárbara, evidenciando conexões históricas duradouras entre as antigas famílias da região.
Pelo lado luso-açoriano, pesquisas documentais indicam que João “Pitoco” seria primo de 11º grau do meu pai. O ponto de intersecção entre as linhagens remonta a doze gerações, convergindo no casal Brás de Almança e Maria Pinheiro, meus 12º avós. Brás de Almança destacou-se como um dos primeiros moradores e chefe de família da Freguesia de Cedros, na Ilha do Faial, nos Açores, tendo vivido entre os séculos XVI e XVII. Nascido por volta de 1570 ou 1580, não teve seu registro de batismo localizado. Brás faleceu em 20 de maio de 1657, na mesma freguesia. Sem deixar testamento, recebeu os sacramentos católicos e foi sepultado na Capela de Nossa Senhora dos Remédios, na Igreja Paroquial de Santa Bárbara.
Por volta de 1610, Brás casou-se com Maria Pinheiro, nascida por volta de 1600. A união gerou cerca de dez filhos, entre eles Brás da Almança Filho (1614–1684), Gregório, Francisco, Antonio e Bárbara. Maria faleceu em 17 de setembro de 1648, antes do marido. Embora o pároco não tenha especificado o local exato em seu assento de óbito, presume-se que tenha sido sepultada na mesma Igreja Paroquial de Santa Bárbara. O registro de seu falecimento descreve-a formalmente como a “mãe dos Almança”, expressão que a consolida como matriarca fundamental dessa linhagem, cujos descendentes cruzariam o oceano para estabelecer sólidos laços de parentesco no Rio Grande do Sul.
Créditos da foto:
Foto cedida por João Pitoco e digitalizada/editada/colorizada por Maicon Leite
REFERÊNCIAS:
Arquivo Histórico Rio Grande do Sul, Códice C-333, relação dos colonos chegados em São Leopoldo em 9.5.1829, pg. 116, n° 9 a 13, evangélicos: Peter Schneider, Felippina, esposa; filhos: Jacob, Pedro Christiano. Disponível no Family Search.
BRASIL. 2º Ofício do Registro Civil das Pessoas Naturais de Porto Alegre. Registros de óbito de Cirila Dias da Silva (n. 32984) e Orlando Pereira Dias (n. 10.861), 1974–1990. Disponível no Family Search.
BRASIL. Cartório do Registro Civil de Ivoti. Registro de óbito de Pedro Schneider, 12 maio 2000. Livro C-4, folha 210, termo 1955. Disponível no Family Search.
BRASIL. Cartório do Registro Civil de Três Coroas / Taquara. Registro de casamento de Juvenal Pereira Dias e Maria José da Costa, 27 fev. 1937. Livro n. 4, fls. 199-200, n. 8. Disponível no Family Search.
BRASIL. Cartório do Registro Civil de Três Coroas / Taquara. Registro de casamento de Virgilio Pereira Dias e Maria Silvina Schneider, 27 jun. 1933. Livro n. 4, fls. 66v, n. 27. Disponível no Family Search.
BRASIL. Ofício do Registro Civil de Gramado. Registro de óbito de Avelina de Souza Pinto, 26 jul. 1983. Livro C-3, fls. 290, n. 801. Disponível no Family Search.
BRASIL. Ofício do Registro Civil de Gramado. Registro de óbito de Dalila Costa dos Santos, 29 fev. 1996. Livro C-8, fls. 215, n. 2220. Disponível no Family Search.
FAMILYSEARCH. Árvore Genealógica: Juvenal Pereira Dias (1914–1979). ID: GZJJ-7CR. Disponível em: https://www.familysearch.org/pt/tree/person/GZJJ-7CR. Acesso em: 23 set. 2026.
FAMILYSEARCH. Árvore Genealógica: Pierre Duprat (aprox. 1830–Falecido). ID: 9NLZ-N2Z. Disponível em: https://www.familysearch.org/pt/tree/person/about/9NLZ-N2Z. Acesso em: 23 set. 2026.
FAMILYSEARCH. Árvore Genealógica: Registros Diversos. ID: LYKV-4ZR. Disponível em: https://www.familysearch.org/pt/tree/person/details/LYKV-4ZR. Acesso em: 23 set. 2026.
IGREJA CATÓLICA. Paróquia de Nossa Senhora do Rosário (Topo, Calheta, São Jorge, Açores) e Freguesia de Cedros (Ilha do Faial). Registros paroquiais de batismos, casamentos e óbitos dos séculos XVII a XIX (Famílias Dias de Sousa, Almança, Jordão e Pereira). Disponível no Family Search.
UNIVERSIDADE DO MINHO. Instituto de Ciências Sociais. Grupo de História das Populações. Base de Dados Genealógica: Brás da Almança (Freguesia de Cedros). Disponível em: http://www.ghp.ics.uminho.pt/geneweb/gwd.exe?b=CEDROS;lang=pt;p=bras+da;n=almanca. Acesso em: 23 set. 2026.
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