Uma fotografia dos anos 1980 e as raízes Schweitzer da família Feltes

Hoje vamos conferir mais um registro fotográfico da família Feltes, desta vez ambientado na década de 1980. Na imagem, aparecem os amigos Astor Daniel Linden, Silvio Eloy Pereira, Leonardo Feiten e Antonio Carlos Feltes, o “Tonho”, reunidos em frente à casa da família Feltes, na esquina das ruas Vera Cruz e Odorico Mosmann.

Estacionado em frente à residência, um Chevette SR ajuda a situar a fotografia no tempo e acrescenta ao registro um elemento característico daquela geração. O cenário revela a residência onde Antonio Carlos nasceu, eternizando elementos que fizeram parte do cotidiano da família e da vizinhança. Conforme relata o próprio Feltes, o registro traz à tona recordações vívidas daquele endereço: “Ao fundo a casa onde nasci, nesta esquina maravilhosa. Pé de abacate e parreira que a muitos atendeu, principalmente a nós. Minha saudosa casa”.

Em busca das raízes

Anteriormente, acompanhamos a trajetória do pioneiro Mathias Feltes, que deixou a região alemã do Saarland a bordo do célebre veleiro Olbers em 1828, estabelecendo-se nas terras de Quatro Colônias. Observamos também como essa linhagem germânica se entrelaçou com os pioneiros da família Timm — chegados na histórica primeira leva de 1824, com raízes ancestrais que remetem até a Dinamarca — e, mais tarde, com a matriz suíça da família Hugentobler. Contudo, para compreender plenamente como essas diferentes origens europeias se uniram e se consolidaram em solo gaúcho ao longo das gerações, é preciso voltar a atenção para as famílias que funcionaram como o verdadeiro tecido conectivo dessa sociedade colonial.

O ramo Schweitzer

Na intrincada teia demográfica que formou as colônias alemãs no Rio Grande do Sul, algumas famílias desempenharam papel importante na formação das redes de parentesco e sociabilidade. Estudar o passado da imigração exige observar não apenas trajetórias isoladas, mas os pontos de convergência onde diferentes famílias se encontram. Nesse contexto, o tronco formado pela família Schweitzer desponta como um dos importantes elos da rede familiar que se desenvolveu nas antigas colônias alemãs do Rio Grande do Sul.

Hans Jakob Schweitzer (1778–1856) e Anne Elisabeth Christine Engels (1782–1856), pentavós paternos de Antonio Feltes, oficializaram sua união no dia 25 de novembro de 1804. Eles enfrentariam a travessia oceânica para o Brasil, compartilhando uma vida tão entrelaçada que a documentação histórica registra o falecimento de ambos exatamente no mesmo dia: 4 de novembro de 1856.

Antes de deixarem o continente europeu, o casal deu início à sua descendência. Quando Hans Jakob completou 32 anos e Anne Elisabeth 28, nasceu o filho Johann Nikolaus Philipp Schweitzer, no dia 10 de setembro de 1810. O nascimento ocorreu na localidade de Nack, situada em Wendelsheim, no distrito de Alzey, região de Rheinhessen. Johann Nikolaus Philipp carregaria o legado da família para o Novo Mundo, tornando-se uma figura central na expansão da linhagem em solo gaúcho.

A presença no Brasil e o estabelecimento inicial na colônia ficaram preservados em um precioso livro de registro populacional datado de 1826, o Códice C-333 do Arquivo Histórico do Rio Grande do Sul (AHRS), manuscrito original organizado pelo médico e diretor da colônia Dr. João Daniel Hillebrand, contendo o registro cronológico de 7.465 imigrantes alemães chegados à Província de São Pedro do Rio Grande do Sul entre 1824 e 1853. Neste documento, posteriormente disponibilizado em formato de livro por Gilson Justino da Rosa, o patriarca Hans Jakob — anotado simplesmente como Jacob — é listado com 46 anos, ao lado de sua esposa “Christin”, com 43.

O registro de 1826 apresenta pequenas divergências em relação às idades obtidas na documentação genealógica. No códice, Jacob aparece com 46 anos e Anne Elisabeth Christine Engels com 43, enquanto os registros de nascimento posteriormente associados ao casal indicam, respectivamente, 1778 e 1782. Diferenças dessa natureza eram relativamente comuns nos registros de imigração e não necessariamente invalidam a identificação do núcleo familiar, sobretudo quando confrontadas com os nomes dos filhos e demais documentos.

A contabilidade histórica revela a dimensão da família no momento da adaptação à nova terra. Cruzando os dados de 1826 com a documentação genealógica da família, é possível identificar com precisão os filhos que os acompanhavam: as jovens Elisabeth (18 anos), Carolina Ottilie (anotada como Otilia, 16) e Christin (14), o adolescente Johann Nikolaus Philipp (anotado como Felippe, então com 15 anos), além das crianças Apollonia Helena (Apolonia, 9), Nicoláo (7) e Maria Barbara (Barbara, 5).

Já enraizado e crescendo no Brasil, Johann Nikolaus Philipp protagonizou um dos casamentos que marcariam a demografia local. No dia 27 de janeiro de 1831, em São Leopoldo, ele uniu-se a Anna Elisabeth Gertraud Scheffel. Nascida em 1811, na localidade alemã de Berghausen, Anna Elisabeth era filha de Johann Christian Scheffel e Anna Maria Müsse. Da união nasceram 13 filhos, seis homens e sete mulheres. Essa numerosa descendência contribuiu para ampliar a rede de parentesco da família Schweitzer e estabelecer novas conexões com outras famílias da região.

Entre esses treze filhos, ganha protagonismo a trajetória de Anna Catharina Schweitzer, nascida em 1832, que viria a estabelecer conexão com a família Timm. O seu casamento com o pioneiro Johann Jacob Timm ocorreu em 21 de julho de 1851. Segundo o manuscrito paroquial desta cerimônia, redigido pelo padre Wendelino, evidencia-se as barreiras linguísticas da época.

Embora a margem do documento identifique claramente os noivos como “Jacobo Timm” e “Anna Cath.a Schweitzer”, o texto corrido apresenta uma grafia aportuguesada, registrando o sobrenome do noivo equivocadamente como “Think”. O precioso documento atesta ainda que a noiva era moradora “no Lombo Grande”, atual bairro Lomba Grande, e sacramenta o elo definitivo que, gerações mais tarde, alcançaria as famílias Feltes e Hugentobler.

Anna Elisabeth faleceu em 29 de dezembro de 1873, aos 62 anos. Johann Nikolaus Philipp faleceu pouco mais de dois anos depois, em 14 de junho de 1876, aos 65 anos, em Lomba Grande.

Observar a genealogia por essa perspectiva transforma a pesquisa. Os nomes deixam de ser apenas dados frios em velhos livros paroquiais e passam a explicar a rede de relacionamentos e as fundações de parentesco que definem a identidade demográfica de toda a região. O legado do tronco Schweitzer transcende a própria descendência: é o retrato vivo e documentado de como uma comunidade inteira foi forjada.

Ligações familiares:

Johann Nikolaus Philipp Schweitzer, também referido em alguns registrossimplesmente como Johann Philipp, era tetravô do “Tonho” e meu tio-pentavô. Ele era irmão da minha pentavó Apollonia Helena Schweitzer (1816–1904). Resumidamente, a história de Apollonia é a seguinte: ela constituiu família a partir de dois relacionamentos distintos com membros da família Diefenbach. O primeiro deles foi com Johannes Diefenbach Filho, nascido em 1810, que havia emigrado para o Brasil com seus pais e irmãos no ano de 1825. O casamento foi celebrado em 12 de dezembro de 1829, em São Leopoldo.

Dessa união nasceram três filhos: Luiz (1830), Philipp (1832) e Barbara Diefenbach (1836). Barbara é a ancestral direta que dá seguimento à linha matriarcal que chega até mim, passando por Maria Pauline Haag, Heinrich Leopold Hartz, minha avó Erna Hartz e minha mãe, Loiva Haag.

Segundo o capítulo “Família Diefenbach”, assinado por M. C. Diefenbach na obra “Famílias de Origem Alemã no Rio Grande do Sul”, Johannes Diefenbach Filho teve sua trajetória interrompida em 1836, quando foi capturado e morto no contexto da Revolução Farroupilha. Viúva em meio às incertezas da revolução, Apollonia Helena casou-se pela segunda vez em 23 de julho de 1843, também em São Leopoldo. O novo matrimônio ocorreu com o irmão mais novo de seu falecido marido, Johann Peter Diefenbach (1812–1859).

A história de Apollonia Helena Schweitzer revela, portanto, que o mesmo casal que está na origem de uma das linhas ancestrais de Antonio Feltes também integra diretamente a minha própria árvore genealógica. Por meio de seus filhos e dos casamentos realizados nas primeiras décadas da colonização, o sobrenome Schweitzer acabou se conectando a famílias como Diefenbach, Timm, Feltes e Hugentobler, formando uma extensa rede de parentesco que atravessou gerações e diferentes comunidades do Rio Grande do Sul.

É justamente nessa sobreposição de famílias que a genealogia deixa de ser apenas uma sucessão de nomes e datas. Um registro fotográfico dos anos 1980 acaba conduzindo a uma história que começou na Europa, atravessou o Atlântico e chegou às famílias que ajudaram a construir a sociedade colonial do Vale do Sinos e de outras regiões do estado.

Crédito da foto:

Foto do acervo de Antonio Carlos Feltes

Fontes:

FAMILYSEARCH. Johann Philipp Schweitzer. Árvore Familiar. [S. l.], [2026]. Disponível em: https://www.familysearch.org/pt/tree/person/details/LT2K-K7C. Acesso em: 3 set. 2026.

FAMILYSEARCH. Jose Antonio Feltes. Árvore Familiar. [S. l.], [2026]. Disponível em: https://www.familysearch.org/pt/tree/person/9NL8-F8Z. Acesso em: 29 ago. 2026.

FEY, Ademar Felipe. Imigração Alemã no Brasil: Navios e Passageiros Anos 1824 a 1830. 6. ed. Caxias do Sul: Ademar Felipe Fey, 2023.

GENEANET. Johann Nikolaus Philipp Schweitzer. Geneanet. [S. l.], [2026]. Disponível em: https://gw.geneanet.org/hfporto?lang=pt&n=philipp+schweitzer&p=johann+nikolaus. Acesso em: 3 set. 2026.

IGREJA CATÓLICA. Registro de casamento de Jacobo Timm e Anna Catharina Schweitzer. Freguesia de São Leopoldo, RS, 21 jul. 1851. 1 fotografia do manuscrito original. Disponivel no Family Search.

ROSA, Gilson Justino da. Imigrantes Alemães (1824-1853). Porto Alegre: Edições EST, 2005.

SÃO LEOPOLDO. Colônia Alemã. Livro de registro de entrada de imigrantes. São Leopoldo, RS, 3 mar. 1829. 1 fotografia do manuscrito original. Disponível no Family Search.

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