O histórico show de Roberto Carlos na Sociedade Cultural e Recreativa Parobé

O inverno de 1972 foi rigoroso. Naquele mês de agosto, a rotina do interior do Rio Grande do Sul tinha uma cor própria. Conforme matéria na Revista do Cinquentenário da Sociedade: “Em 1972, se tomava limonada e Cibalena. Biotônico Fontoura era para crianças. Andava-se de carrinhos de rolimã e no Simca Chambord”. Parobé, então um próspero distrito de Taquara, preparava-se para um evento histórico.
A Sociedade Cultural e Recreativa Parobé, que está celebrando seus 70 anos de uma trajetória inseparável da memória da cidade, seria o palco de um acontecimento que ficou marcado na memória. No dia 26 de agosto, o clube receberia ninguém menos que o Roberto Carlos. A notícia gerava um misto de euforia e ceticismo nas ruas: seria mesmo verdade que o maior nome da música nacional viria cantar ali?
Para compreender a importância desse show, é preciso olhar para o patamar em que Roberto Carlos se encontrava na exata época da apresentação. Lembremos que foi a partir de 1968, com o fim da Jovem Guarda, que ele iniciou cuidadosamente a transição de ídolo da juventude para o rei romântico do Brasil adulto da década de 1970. As coisas estavam mudando.
O país inteiro estava sob o impacto monumental da sua discografia amadurecida, com destaque absoluto para o álbum de 1971, que consolidou esse rito de passagem no embalo de obras-primas como “Detalhes” e “Amada Amante” — canções eternizadas pela parceria de Roberto com o saudoso Erasmo Carlos.
Aquele mês de agosto de 1972 foi marcado por uma verdadeira maratona no Rio Grande do Sul. No mesmo mês em que se apresentou em Parobé, a turnê de Roberto Carlos passou também pela capital, Porto Alegre, e pelo extremo sul, em Bagé. O cantor testava o repertório do disco que seria gravado em setembro daquele ano nos estúdios da gravadora CBS, em Nova York, e lançado em dezembro — álbum este que culminaria no reconhecimento mundial de Roberto como o cantor romântico mais adorado do país.
Esse cenário de transição e intensa euforia no interior gaúcho provou sua força na fronteira. Na cidade de Bagé, vivenciou-se um furor idêntico. De acordo com relato de Cristina Blotta na página Conheça Bagé, fazia um frio danado e as ruas estavam tomadas pela lama quando Roberto e o grupo RC7 se apresentaram nos antigos galpões da Cobagelan, em frente à Associação Rural de Bagé. O grande evento da noite era a escolha da Miss Senhorita Turismo do Rio Grande do Sul, conduzido pelos apresentadores Maria Luiza Benítez e Jorge Zavarize. Os relatos atestam que as filas eram enormes e havia muito mais público do que cadeiras disponíveis. Os bageenses, eufóricos com a primeira visita do “Rei”, testemunharam um espetáculo que mesclava antigos sucessos com uma forte ênfase no novo repertório adulto.

Em Parobé, trazer um astro desse calibre exigiu idêntica ousadia. A contratação foi cravada pela gestão local. Segundo a revista, o acordo foi firmado com quem estava na presidência do clube, Hélio Krummenauer, “que juntamente com sua diretoria, havia contratado o show com o Kopschina, empresário da área de entretenimento, por uma pequena fortuna”. O compromisso estava selado e impresso no Carnê Social do segundo semestre, estipulando o início do espetáculo às 22 horas, “impreterivelmente”.
Mas, assim como o frio extremo relatado em Bagé, a natureza impôs seus duros desafios na região do Vale do Paranhana. Conforme a matéria relata, exatamente naquele período, “uma manga d’água lavou a parte norte do Rio Grande do Sul”. As estradas, em sua esmagadora maioria sem asfalto, transformaram-se em um atoleiro intransitável. A movimentação de curiosos em frente à Sociedade começou cedo. Vencendo o barro, a publicação descreve que “Roberto Carlos em seu Galaxie serpenteava nas estradas lamacentas”. Dentro do luxuoso veículo estavam o motorista, um segurança, o empresário Kopschina e o próprio “Rei”. Roberto havia chegado, mas o veículo que trazia os músicos do conjunto RC7 não havia conseguido passar.
O relógio já passava das 10 horas da noite e a ausência da banda gerou um impasse crítico. Como consta na revista, Roberto Carlos foi categórico: “Sem a banda não me apresento”. A frase causou apreensão imediata nos anfitriões. A comunidade, no entanto, não deixaria a noite terminar em frustração. Membros da diretoria entraram em ação e, de acordo com o texto da publicação, “Neucir Hartz, juntamente com outros membros da diretoria, localizou Roberto Carlos na saída do distrito”. Com o resgate bem-sucedido pelas estradas de terra, todos retornaram ao clube.

O que se desenrolou nos bastidores tornou-se uma lenda urbana local. Para acalmar o público que lotava o salão, a matéria conta que “O Guaíba Show animava o baile, enquanto Roberto Carlos e o RC7 dirigiram-se para a cancha de bolão, onde reservadamente aguardariam”. Ali, naquele espaço, o contraste atingiu seu ápice: enquanto alguns componentes da banda passavam o tempo jogando bolão, a revista recorda que “o ‘Rei’ tomava seu próprio uísque, juntamente com o mel, que trouxera num potinho”.
O espetáculo finalmente começou por volta das duas horas da madrugada. Durante mais de uma hora, a voz que dominava as rádios do país ecoou pelas paredes da Sociedade, entregando à plateia o mesmo requinte musical que os estúdios de Nova York registrariam semanas depois. Imediatamente após o fim da apresentação, o cantor e sua equipe partiram para realizar a outra apresentação daquela noite. A turnê era tão intensa naquele mesmo mês que Roberto rumou direto para Porto Alegre, onde, conforme destaca a publicação, “só subiu ao palco às seis da manhã”.
Nos 70 anos de história da Sociedade Cultural e Recreativa Parobé, a entidade foi palco de eventos marcantes. No entanto, o show de 26 de agosto de 1972 ocupa um lugar ímpar nessa cronologia. Sem registros fotográficos conhecidos do momento da apresentação no palco, a memória daquela noite sobrevive graças ao detalhe lembrado na revista, o convite impresso no carnê social do clube, cedido gentilmente por Ory Ramos Ferreira, e aos relatos da comunidade que, enfrentando a tempestade e a lama, garantiu que a história de Parobé tivesse sua própria trilha sonora.
OBS: as fotos de Roberto Carlos que constam nesta matéria NÃO são do show em Parobé, mas sim da mesma época, inclusive com uma foto clicada em show realizado em São Borja em 1973 e uma foto com uma fã em Bagé no mesmo mês de agosto de 1972, ou seja, podemos ter um vislumbre de Roberto Carlos na mesma época que passou por aqui.
Créditos das imagens:
Acervo da Sociedade Cultural e Recreativa Parobé/Ory Ramos Ferreira (convite do show)
Bety Corrêa/São Borja de outros tempos (apresentação de Roberto Carlos em São Borja)
Site A História do Disco (Roberto Carlos em frente aos carros)
Cristina Blotta – @conhecabage / Foto do acervo de Lúcia Fernandes (foto de Bagé)
Fontes:
Revista do Cinquentenário da Sociedade Cultural e Recreativa Parobé
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