Especial Logradouros: Mapeamento histórico e contexto da Rua Lothário Raymundo

Seguimos, com este material, o novo especial, desta vez focado no mapeamento histórico dos logradouros do município. O propósito deste projeto é pesquisar, documentar e explicar a origem da nomenclatura das ruas e praças locais. A cada edição, o levantamento destacará o que for possível da biografia daqueles que cederam seus nomes aos espaços públicos.

A proposta é oferecer um registro detalhado sobre quem foram essas pessoas e qual os papéis desempenharam na fundação, administração e estruturação da nossa comunidade ao longo das décadas. Muitas vezes, a população percorre os caminhos da cidade sem o conhecimento da história por trás de cada placa. O objetivo deste especial é resgatar e apresentar essas informações. Nesta segunda parte, vamos descobrir um pouco mais sobre a Rua Lothario Raymundo e suas características, bem como registrar fotos atuais para a posteridade.

Nossa foto principal foi tirada provavelmente em 1984, onde estão funcionários da prefeitura trabalhando no calçamento da rua, localizada ao lado da Igreja Católica. À direita, um dos trabalhadores está abaixado trabalhando arduamente. À esquerda, a igreja recebia reformas.

Quem foi Lothário Raymundo?

A via recebeu este nome em homenagem a Lothário Vendelin Raymundo, cuja forte ligação com o catolicismo, segundo relatos de Ligia Mosmann publicado na Revista Atafona, motivou a escolha do local para perpetuar sua memória. A escolha da localização vizinha à paróquia não foi obra do acaso: Lothário teve uma ligação profunda com a comunidade católica local. Ele ajudou na construção do primeiro pavilhão de festas da comunidade, concluído em 1950 — ocasião em que foi festeiro da primeira celebração ao lado de Geni Lehnen — e integrou a comissão que pleiteou junto às autoridades eclesiásticas de Porto Alegre a criação da paróquia de Parobé, em 1961.

Nascido em 26 de julho de 1906, na Picada Francesa (atual Quilômetro Quatro), Lothário era filho de Carlos Albino Raymundo (1875–1950) e Albertina Flesch (1880–1954), casados em 2 de julho de 1898, em Taquara. Dessa união nasceram seis filhos: Avelina Rosália (1899–1975), Wilma Vendelina (1904), o próprio Lothário, Liberto Leonel (1908–1952), Olívia Isabel (1910) e Melita Hortência. De acordo com o texto de Lígia Mosmann, publicado na Revista Atafona, aos nove anos, Lothário mudou-se para Rolantinho e, aos 16, chegou a Parobé. Na juventude, morou com Samuel Sohne, dono de um moinho, para aprender os ofícios de carpintaria e marcenaria. Aos 21 anos, casou-se com Vilma Röhrirg, que tragicamente faleceu por complicações no parto.

Viúvo, em 2 de dezembro de 1933, casou-se com Rosa Feiten, nascida em 27 de agosto de 1905, filha de Jorge Feiten e Carolina Hennemann. Desse casamento nasceram Lourdes Irene, Querino Bruno (1939–2003), Maria Cecília e Lucia Aura. Lothário faleceu em 10 de fevereiro de 1973, aos 66 anos, enquanto Rosa viveu até os 90 anos, falecendo em 19 de janeiro de 1996.

A trajetória profissional e comunitária de Lothário foi intensa e com diversos desdobramentos. Ele trabalhou como carpinteiro e marceneiro na serraria e fábrica de móveis dos Irmãos Auler, então localizada na Rua João Mosmann. Em 1936, adquiriu uma propriedade no bairro Integração, junto à RS-239, área que ainda pertence à família. Ali dedicou-se à agricultura até 1945, quando viu suas plantações serem destruídas por uma severa praga de gafanhotos que assolou a região. Passou então a cultivar cana-de-açúcar para produzir melado e passou a fabricar schmier aproveitando as frutas da estação.

Além do envolvimento religioso citado no início do texto, ajudou a fundar a Sociedade Cultura e Recreativa de Parobé (1956) e tornou-se uma voz ativa pelos agricultores. Em 1961, engajou-se na Frente Agrária Gaúcha e, no ano seguinte (06/05/1962), ajudou a criar o Sindicato Rural de Taquara. Fez parte da diretoria provisória e presidiu o sindicato de 1966 até o seu falecimento, em 10 de fevereiro de 1973. Em suas funções, apoiou atividades da ASCAR (atual EMATER), Clubes 4S e garantiu assistência médica e odontológica aos associados.

A Rua Lothário Raymundo:

A rua inicia na esquina com a Rua Dr. Legendre, cruza com as ruas Alfredo Feiten e Tiradentes, depois cruza com a José Mosmann Sobrinho e a Carlos Auler, finalizando na Rua Venceslau Escolar.

Na entrada da rua, esquina com a Rua Dr. Legendre, erguia-se uma imponente figueira, plantada por Moisés de Souza Pires Mosmann, presença constante em diversas fotografias antigas e lembrada com carinho por moradores que hoje têm cerca de 80 anos. O corte da árvore, ocorrido no início da década de 1950, gerou um embate na comunidade, dividindo aqueles que defendiam sua preservação e os que priorizavam a mobilidade urbana e o comércio, grupo que acabou vencendo a queda de braço e cujo desfecho hoje nos resta lamentar. Logo à direita de onde a figueira ficava, localizava-se a residência de Moisés de Souza Pires Mosmann (1879–1969) e sua esposa Maria Isabel Raymundo (1883–1950), conhecida como “Bella Raimundo”. Ali, naquela esquina, funcionava o Paulo Lanches (entre 1993 e 2001)e hoje sedia o Mestre Cuca Lanches.

Inserida no núcleo urbano original do município, a Rua Lothário Raymundo teve seu desenvolvimento e pavimentação impulsionados, historicamente, em dois grandes momentos. O primeiro remete à Era Ferroviária, quando o traçado das vias mais antigas do Centro cresceu ao redor da dinâmica da estação da Viação Férrea, que era o grande motor econômico para o escoamento da produção agrícola e das primeiras manufaturas locais. O segundo impulso ocorreu durante o boom Coureiro-Calçadista (1970–1990). Com a explosão industrial puxada por grandes fábricas de calçados, a cidade sofreu um intenso processo de urbanização. Vias centrais que antes abrigavam chácaras ou residências esparsas foram rapidamente adensadas. Foi nesse período que a rua ganhou o perfil que tem hoje, passando a abrigar empreendimentos verticais para absorver o crescimento populacional. Atualmente, a rua caracteriza-se por essa mescla de imóveis residenciais e pontos de interesse, abrigando edifícios de destaque, como o Residencial Authentic e o Edifício Paris, marcando o contraste entre a memória de seus primeiros moradores e a verticalização contemporânea.

Origens dos Raymundo:

A presença do sobrenome Raymundo na região remonta a um processo de adaptação linguística. A grafia atual foi adotada a partir do avô de Lothário, Johann Wilhelm Raymundo (1849–1917), que se casou com Maria Dorothea Schirmer (1850–1906) em 1873. Até a geração anterior, o nome da família era grafado como Rismondo. O bisavô de Lothário, Lorenzo Rismondo, nasceu em 7 de janeiro de 1827 e faleceu em 1908. Era filho de Giuseppe Rismondo (1795) e Santa Manterolla (1800), em uma linhagem que pode ser rastreada na árvore genealógica até Cristoforo Rismondo, nascido por volta de 1725.

Lorenzo emigrou de Rovinj, cidade localizada na costa oeste da península da Ístria, no Mar Adriático. Originalmente uma ilha conectada ao continente no século XVIII, Rovinj possui forte influência arquitetônica e cultural do longo domínio da República de Veneza (1283–1797) e, após passar por controles austríaco, italiano e iugoslavo, hoje pertence à Croácia, desde a independência em 1991. Refletindo essa herança multicultural, a cidade é bilíngue, com os idiomas croata e italiano, e abriga uma grande comunidade italiana.

O imigrante chegou ao Brasil em 1846, estabelecendo-se em Taquara do Mundo Novo logo nessa época, juntamente com Tristão José Monteiro, de quem era grande amigo e compadre, tornando-se um dos primeiros habitantes da região. Católico, Lorenzo casou-se em São Leopoldo no dia 4 de agosto de 1847 com a evangélica Maria Catharina Kühner (nascida em 1821). O casal teve 12 filhos, sendo a primogênita Catharina Cândida Raymundo (1847–1889). No livro de registros de casamentos da Cúria Metropolitana de Porto Alegre, o nome do noivo sofreu a primeira adaptação, anotado como “Lourenço Resmunto”, para depois ser aportuguesado de vez como Lourenço Raymundo.

A trajetória de Lorenzo está documentada nos principais registros históricos da colonização. Na relação de 1848 feita pelo médico e diretor da colônia de São Leopoldo, Dr. João Daniel Hillebrand, e catalogada no livro “A Saga dos Alemães: Do Hunsrück Para Santa Maria do Mundo Novo. Vol. 1”, de Erni Guilherme Engelmann, o imigrante aparece sob o número 170. Em 1854, constando como número 32 na relação de Tristão José Monteiro com a grafia “Lorenz Resmundo”, ele já era proprietário de uma colônia de 150.000 braças quadradas na margem oriental do Rio Santa Maria, atual Rio Paranhana. Lá, residia com a esposa, os filhos e o agregado Felipe Mauviller, um viúvo evangélico de 72 anos, consolidando as raízes de uma família que deixaria sua marca permanente na história e na geografia da região.

Ligações familiares:

Lothário era primo terceiro do meu bisavô, Heinrich Leopold Hartz (1888–1966), casado com Bertha Baum (1891–1949). Tal conexão tem relação com meu hexavô Johannes Diefenbach (1775–1854), que foi casado duas vezes, com minha hexavó Anna Maria Knewitz (1775) e com a antepassada de Lothário, sua trisavó Anna Heleonora Helena Boller (1785–1809). Sendo assim, os filhos de Lothario eram primos quartos da minha avó Erna Hartz (1911-1980). A esposa de Lothário, Rosa Feiten, era prima sétima da tetravó da minha esposa, Catharina Vogt (1865–1942), casada com Aloysio Buhl (1847–1928).

Créditos das fotos:

Revista Atafona, Parobé, ano III, n. 21 / Maicon Leite / Google / Museu Histórico de Parobé

Fontes:

ENGELMANN, Erni Guilherme. No rastro dos emigrantes do Hunsruck no Brasil – in: A saga dos Alemães – Do Hunsruck para Santa Maria do Mundo Novo vol. 1. Igrejinha.

FAMILYSEARCH. Árvore Familiar: Lothário Vendelin Raymundo (LBL1-3QK). Disponível em: https://www.familysearch.org/pt/tree/pedigree/landscape/LBL1-3QK. Acesso em: 2 jun. 2026.

MOSMANN, Ligia. Revista Atafona, Parobé, ano III, n. 21, jun. 2006.

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Projeto realizado por Maicon Leite, graduando em História na Faccat e presidente da AMUPA (Associação dos Amigos do Museu Histórico de Parobé – https://www.facebook.com/associacaoamupa)

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