Nesta fotografia da primeira metade do século XX, provavelmente da década de 1940, encontra-se Suely Beck (1927–2000), cuja trajetória representa o ponto de convergência de antigas famílias que desbravaram e moldaram o Vale do Sinos e a região do Paranhana. Segundo o termo de registro civil de seu casamento, Suely nasceu em 20 de março de 1927 e teve seu nascimento registrado no 6º Distrito de São Leopoldo. Historicamente, essa circunscrição corresponde ao atual município de Morro Reuter — região que posteriormente seria desmembrada do 4º Distrito (Dois Irmãos) e elevada a essa categoria administrativa entre 1952 e 1959, antes de se emancipar e se tornar um município independente. OBS: no verso da foto consta: “Como lembrança da Sueli”.
A família residia na localidade de Poço Fundo, localizada no 3º Distrito do município de Taquara, território que hoje corresponde à cidade de Parobé. Suely era filha dos agricultores Alfredo Beck, cujo nascimento os registros documentam em 24 de dezembro de 1892, e Gasparina Apollo, nascida em 30 de março de 1899.
O casamento em Poço Fundo e as raízes da família Haag
Foi na localidade de Poço Fundo que, no dia 28 de setembro de 1946, Suely, aos 19 anos e declarando a ocupação de serviços domésticos, casou-se com o agricultor Anisio Haag (1924–1992). O ato foi formalizado na sala de audiências local pelo Juiz Distrital Avelino Arnildo Ohlweiler e lavrado pelo escrivão Moysés de Souza Pires Mosmann, filho de João Mosmann.
O registro indica que Anisio nasceu em 6 de junho de 1924, sendo registrado no próprio 3º Distrito de Taquara. Ele era filho do também agricultor Reinhold Haag (1891–1981) e de Maria Izolina Joaquina Da Silva (1902–1964). Expandindo os ramos desta união, Anisio era neto paterno de Christian Adolf Haag (1863–1944) e Louise Wasem (1866–1938), que haviam firmado matrimônio em Picada Hartz, e neto materno de Candinho Cardoso Da Silva e Maria Joaquina.
As testemunhas do casamento reforçaram os profundos vínculos geográficos e parentais de ambas as famílias. Pelo lado do noivo, assinou Arnildo Haag, agricultor residente no 3º Distrito de Taquara. Pelo lado da noiva, a assinatura foi de Almiro Apollo, residente no 6º Distrito de São Leopoldo (atual Morro Reuter), demarcando a manutenção da origem territorial da linhagem Apollo.
A ascendência paterna: a travessia oceânica da família Beck
As raízes paternas de Suely remontam aos primeiros movimentos migratórios germânicos para o Sul do Brasil. Seu pai, Alfredo, é o elo direto com os pioneiros que se estabeleceram nas colônias imperiais. Alfredo era filho de Peter Jacob Beck (1866–1923) e Margaretha Weber (1868–1908), agricultores que se estabeleceram na região da velha “Harz Pikade” (Picada Hartz), atual Nova Hartz. A linhagem de Margaretha revela raízes profundas: ela era filha de Johann Jacob Julius Weber (nascido em 1837) e Margaretha Hofstätter (1843–1875), sendo neta, pelo lado paterno, de Philipp Andreas Weber (1815–1879) e Anna Margaretha Uebel, e pelo lado materno, de Johann Philipp Hoffstätter (1815–1875) e Philippina Catharina Port (1824–1918).
Subindo a árvore genealógica dos Beck, localizamos os bisavós paternos de Suely: Johannes Beck (1832–1901) e Catharina Schneider (1842–1900) — esta última, filha de Georg Schneider (1815–1857) e Katharina Kurz (1822–1888) —, cuja união foi oficializada em 1861, em Dois Irmãos.
O estabelecimento definitivo da linhagem Beck no Brasil deu-se através dos pais de Johannes, Heinrich Ernst Beck (1802–1881) e Elisabetha Margaretha Jung — filha de Johann Gaspar Jung (1771–1858) e Anna Cunegunda Scheller (1782–1859) —, que se casaram em 1828 em São Leopoldo. A origem europeia desta ramificação recai sobre Johann Gaspar Beck (1782–1865) e Anna Elisabetha Seibert (1765–1862), da localidade de Gelnhaar, no antigo distrito de Büdingen (atual município de Ortenberg), no estado de Hesse, Alemanha.
Foi este núcleo pioneiro que protagonizou a travessia do Atlântico. Conforme as informações compiladas por Ademar Felipe Fey em sua obra Imigração Alemã no Brasil: Navios e Passageiros Anos 1824 a 1830, a família Beck emigrou para o Brasil a bordo do veleiro Caroline, juntamente com outras famílias colonizadoras que ajudariam a formar a base demográfica da região. Segundo a referida obra, essa mesma embarcação traria, além dos Beck, companheiros de viagem portando os sobrenomes Barth, Bentzen, Born, Brenning, Bruckmayer, Burmeister, Clausen, Dickel, Dockhorn, Döring, Fahle, Fayette, Foernges, Frehse, Fries, Gründler, Hohlfeld, Kalsing, Kunstmann, Lengler, Missfeld, Pfingsten, Pfingstag, Rau, Ritzel, Ross, Schäffer, Scheffel, Schmidt e Walter. Alguns deles, de famílias muito conhecidas na região e com ligações entre si.
Esta embarcação, uma galera hamburguesa em sua segunda viagem sob o comando do capitão Jacob von der Wettern e do comandante de transporte Anton Adolf Friedrich von Seweloh, foi a responsável pelo nono desembarque geral de imigrantes no país. Embora o embarque dos passageiros tenha ocorrido entre outubro e novembro de 1824, o navio partiu do estuário do rio Elba — possivelmente da cidade portuária de Cuxhaven — apenas em 17 de janeiro de 1825. Após 68 dias cruzando o oceano, o Caroline atracou no Rio de Janeiro em 5 de abril de 1825, trazendo 282 passageiros, entre os quais 112 colonos. A jornada foi marcada por severas provações, registrando-se o falecimento de 29 passageiros durante a travessia.
A etapa final rumo à nova vida no Sul ocorreu a bordo da sumaca Alexandrina. A relação de passageiros desta embarcação contava inicialmente com 125 pessoas, número reduzido para 112 devido a óbitos, doenças ou ordens de permanência na corte. Os imigrantes sobreviventes, carregando o legado que daria origem a gerações como a de Suely, finalmente desembarcaram em São Leopoldo no dia 21 de maio de 1825.

A linhagem materna: As Ramificações dos Apollo
Pelo lado materno, a herança de Gasparina Apollo carrega a história de pioneiros com uma rota migratória singular e uma vasta rede de conexões locais. A árvore familiar revela que Gasparina era prima de Alcides Apollo (1896–1978), filho de Antonio Apollo Cezário e Cândida Martins da Rocha.
A linha direta de Gasparina descende de Serafim Apollo (1878–1947) e Maria José Da Silva Apollo. Serafim era fruto do casamento entre João Apollo Cezário (1852–1924) e Brigida Maria da Conceição (1858–1935) — esta última, filha de José Amora Da Silva e Maria Henriqueta Da Silva. O matrimônio de João e Brigida foi celebrado no dia 15 de agosto de 1884, no município de São Leopoldo.
O Pioneirismo de Luxemburgo, as origens Açorianas e o Caminho do Viamão
Recuando ainda mais nas gerações, localiza-se um dos membros mais antigos e fundamentais dos Apollo no Brasil: José Apollo Cesário Filho (nascido em 1808), também amplamente documentado como Joseph Apollo Cesareo. Natural de Luxemburgo, na Europa, a sua imigração incluiu uma passagem inicial pela cidade de Buenos Aires, na Argentina, entre 1800 e 1825, antes de ingressar definitivamente no Rio Grande do Sul. Em solo gaúcho, casou-se com Maria Francisca da Conceição no dia 31 de outubro de 1829, na cidade de Viamão. Essa foi uma união prolífica, que gerou 11 filhos. Joseph viria a falecer anos mais tarde, já fixado na região de Santa Cristina do Pinhal, em Parobé.
A genealogia de Maria Francisca, esposa do pioneiro luxemburguês, conecta-se diretamente às matrizes luso-açorianas que povoaram o litoral sul do Brasil. Segundo dados coletados no Family Search, ela era filha de Elautério Joze Duarte e Maria Antônia de Jesus. Primeiramente estabelecido em Laguna, na costa de Santa Catarina, Elautério — filho de Amaro Duarte (nascido em 1756) e Anna Cardozo (nascida em 1751) — casou-se em 1804 com Maria Antônia. Ela, por sua vez, trazia a ancestralidade de Manoel Antônio Homem (1756–1808) e Barbara Ignacia de Jesus (1755–1805).
Pouco tempo depois do casamento, o casal migrou de Santa Catarina para Viamão, no Rio Grande do Sul. Esse deslocamento foi estritamente motivado pela vital importância econômica da região, já que Viamão era a sede das primeiras estâncias de criação de gado dos pampas gaúchos. Deste ponto geográfico originou-se o intenso comércio e o transporte de charque e couro com destino a Laguna e São Paulo. Foi de Viamão que se iniciaram as três principais rotas comerciais daquele período, um trajeto já consolidado e fundamental para o desenvolvimento econômico do Sul, historicamente conhecido como o Caminho do Viamão, ou, Caminho das Tropas ou Estrada Real.
Ligações familiares:
Suely era prima em terceiro grau da minha mãe, Loiva Haag. Tal conexão tem como origem meus tetravós Heinrich Ernst Beck e Elisabetha Margaretha Jung, citados no texto acima. Além disso, curiosamente, seu esposo, Anisio Haag, também era primeiro terceiro da minha mãe, cuja conexão remota aos meus tetravós Franz Peter Haag e Anna Elisabetha Antes (falecida durante a travessia do Atlântico, em 1846). Então, enquanto os Beck aqui chegaram em 1825, os Haag ainda estavam longe de embarcar rumo ao Brasil, fato ocorrido somente em 1846.
Fontes:
1. Documentos de Registro Civil
CARTÓRIO DE REGISTRO CIVIL. Termo de Casamento de Anisio Haag e Suely Beck. Taquara, 3º Distrito (Poço Fundo), 28 set. 1946.
CARTÓRIO DE REGISTRO CIVIL. Registro de Nascimento de Suely Beck. São Leopoldo, 6º Distrito, Livro 2, fl. 53, reg. 457.
CARTÓRIO DE REGISTRO CIVIL. Registro de Nascimento de Anisio Haag. Taquara, 3º Distrito, Livro 7, fl. 38v, reg. 74.
2. Obras Literárias e Históricas
FEY, Ademar Felipe. Imigração Alemã no Brasil: Navios e passageiros anos 1824 a 1830. [S. l.: s. n., s. d.].
HUNSCHE, Carlos Henrique. O Biênio 1824-1825 da Imigração e Colonização Alemã no Rio Grande do Sul. Porto Alegre: Província, 1975.
3. Registros Genealógicos (Plataformas Digitais)
FAMILYSEARCH. Árvore Genealógica: Registros da família Beck e Apollo. Acesso em: 5 jun. 2026.
Créditos da foto:
Acervo do Museu Histórico de Parobé – Digitalizada/editada/colorizada por Maicon Leite
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