O início dos anos 90 foi duramente impactado pelas medidas econômicas do Plano Collor, que geraram recessão e arrocho salarial no país. Esse cenário de tensão culminou, em maio de 1990, na primeira paralisação da história de Parobé. Segundo os registros de Sarlet (1999), a greve durou três dias e paralisou o polo calçadista local.
Em vez de radicalizar o conflito, a presidência de Nestor Herculano de Paula optou pela conciliação, promovendo a justiça salarial interna. O episódio foi um divisor de águas: a partir dali a empresa deu seus primeiros passos rumo a uma administração participativa, instituindo uma Comissão de Fábrica para garantir o diálogo contínuo entre a diretoria e os trabalhadores dos pavilhões.
Comissão de Fábrica:
Diretor-Presidente – Nestor Herculano de Paula
Diretor de Recursos Humanos – João Paulo Ostermann
Gerente de Recursos Humanos – Rogerio Luiz Weber
Gerente Industrial – Isidoro Luiz Simianer
Supervisor Geral – Moacir Maciel – Pav. 3
Supervisor de Linhas – Milton Michelsen – Pav. 7 – Manutenção
Corte – Alceu Edinger – Pav. 3 – 1º turno
Costura – Maria Z.V.Coelho – Pav. 4 – 2º turno
Montagem – Alberto Schmidt – Pav. 2 – 2º turno}
Borracha – Luiz C. da Silva – Pav. 10 – 1º turno
Administração – Lourdes Mueller – Refeitório – 1º turno
Expedição – Nelson Oliveira
São Sebastião do Caí
Montagem – Lézio Antich Fábrica 1 – 1º turno”
O “Projeto 2001” e a Estrutura Social
Para sustentar um parque fabril que operava com milhares de funcionários — e que a colocaria entre as maiores do mundo —, a empresa precisou atuar quase como um braço do Estado. O livro “Os 40 anos de Calçados Azaleia S.A.” detalha a consolidação do programa “Construindo o Futuro – Azaleia 2001”, focado em cinco necessidades básicas do cidadão-trabalhador: habitação, saúde, educação, transporte e segurança.
O volume de investimentos sociais era expressivo. A Azaleia estruturou creches do berçário à pré-escola na matriz e filiais, implantou pioneiros programas de ginástica laboral em 1991 e organizou uma logística de transporte coletivo diário para mais de 5.500 funcionários. O incentivo à cultura local também marcava presença, com os colaboradores sendo convidados a trabalhar pilchados durante a Semana Farroupilha. Para complementar o desenvolvimento humano, a fábrica montou Cursos Supletivos de 1º e 2º graus com 18 professores contratados e uma biblioteca própria — batizada de “Érico Veríssimo” — para atender as centenas de trabalhadores matriculados.
A dimensão da operação refletia-se até mesmo no refeitório, que chegava a servir seis mil refeições por dia. Para se ter ideia dessa escala, apenas no cardápio de um dia típico de abril de 1991, foram consumidos volumes industriais: 1.300 kg de frango, 750 kg de carne de panela, 500 kg de batatas e 300 litros de gelatina.
Expansão Tecnológica e Internacionalização
Paralelamente ao desenvolvimento social interno, a Azaleia buscava eficiência para competir globalmente. A década marcou a interligação informatizada dos representantes comerciais através do sistema Connect e a aquisição de equipamentos de grande porte, como a chegada de 36 microcomputadores e do supercomputador IBM 4381.
Essa modernização operacional pavimentou o caminho para novas fronteiras. Ainda no início da década, a empresa abriu uma unidade em Novo Hamburgo — que rapidamente passou a operar com 384 funcionários produzindo 3.200 pares de sapatos diariamente — e, em 1991, formou uma joint venture com a japonesa Shin Niko. O resultado foi a criação da TNK Importadora e Exportadora Ltda., desenhada especificamente para inserir os produtos da marca no rigoroso mercado asiático.
Liderança Setorial e Articulação Institucional
Essa musculatura interna — produtiva, tecnológica e social — deu legitimidade para que a empresa assumisse a dianteira do setor calçadista nacional. A consolidação dessa força no varejo ficou evidente ainda no ano de 1990, quando a marca conquistou o seu 7º “Mérito Lojista” da Confederação Nacional dos Lojistas (CNDL) e levou o título de “Destaque Anunciante do Ano” no Salão da Propaganda Gaúcha.
Na segunda metade da década, a representatividade atingiu o nível institucional máximo quando Nestor Herculano de Paula tornou-se presidente da Associação Brasileira das Indústrias de Calçados (Abicalçados). Foi neste contexto de liderança que a Azaleia ampliou sua articulação com o poder público, estreitando relações com o então governador do Rio Grande do Sul, Antônio Britto. A proximidade de ideias levou o ex-governador a atuar como consultor da Abicalçados no final da década e, logo na virada para os anos 2000, a integrar o Conselho de Administração da Azaleia, selando a transição da marca para o novo milênio.
Na foto, temos a força motriz da fábrica, um grupo de funcionários – ainda não identificados – provavelmente em alguma festa de final de ano da empresa, durante a década de 1990. Quem souber suas identidades, favor comentar.
Fonte:
SARLET, Erica D. Os 40 anos de Calçados Azaleia S.A.: 1958-1998. Canoas: La Salle Editora Gráfica, 1999.
Créditos da foto:
Acervo Calçados Azaleia/Vulcabras – Digitalizada/editada por Maicon Leite
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