Buscando preservar detalhes da história regional, este especial volta-se ao Cemitério Luterano de Parobé, espaço de memória profundamente ligado à comunidade evangélica local e à trajetória da Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil (IECLB). A origem do cemitério está associada à antiga organização da comunidade luterana na cidade e à iniciativa de Pedro Blos Sobrinho (1881–1960), que teria destinado parte de suas terras para sepultamentos em um período em que os evangélicos ainda não dispunham de um espaço próprio consolidado para esse fim.
A presença de lápides antigas, algumas vinculadas a personagens falecidos ainda no final do século XIX, indica que o local preserva memórias anteriores ou contemporâneas ao processo de organização formal da comunidade. É nesse contexto que se destaca a antiga pedra funerária de Heinrich Anton Scheffel e Johanetha Bauer, casal cuja trajetória ajuda a compreender a formação de importantes famílias de origem alemã da região.
As raízes da imigração: os Scheffel
A linhagem Scheffel no Rio Grande do Sul tem entre seus nomes centrais o imigrante Johann Christian Scheffel, também encontrado em registros aportuguesados como João Cristiano Scheffel. Nascido em 1786, em Berghausen bei Berleburg, no antigo Kreis Wittgenstein, era evangélico e conhecido em sua terra de origem como construtor de casas em enxaimel, ou Fachwerkbaumeister. Nas informações genealógicas reunidas, seus pais aparecem como João Cristiano Scheffel e Ana Maria Michel, embora a grafia dos nomes varie conforme a fonte.
Casou-se em primeiras núpcias, em 1809, com Ana Maria Messing, também registrada em algumas leituras como Miss ou formas próximas. Foi com ela que teve os filhos que o acompanhariam na travessia atlântica. Anos depois, já no Brasil, casou-se pela segunda vez, em 4 de novembro de 1839, com Maria Magdalena Dexheimer.
A chegada da família ao Brasil ocorreu em 26 de novembro de 1825, quando Johann Christian emigrou com a esposa e seis filhos. A família aparece vinculada à sumaca Conceição e, provavelmente, ao navio Caroline, em sua segunda viagem ao país, sob o comando do capitão von der Wetheren. Após a chegada à colônia de São Leopoldo, a família passou a integrar o processo de ocupação e formação das comunidades alemãs no Vale dos Sinos.
Já em solo gaúcho, Johann Christian Scheffel aparece como carpinteiro em 1827 e como colono em 1830. Fixado na região de Lomba Grande, faleceu em 24 de fevereiro de 1855, deixando uma descendência numerosa e ligada tanto ao trabalho rural quanto ao ofício da madeira.
Entre seus filhos estavam Cristiano Henrique Scheffel, nascido em 1818, em Berghausen, e mais tarde colono em Lomba Grande; Catarina Scheffel, casada primeiramente com Jorge Haas e depois com João Weckemann; Catarina Elisabete Scheffel, nascida em 1815, em Berleburg, e falecida em 6 de junho de 1855, em Lomba Grande; João Henrique Felipe Scheffel, nascido em 26 de dezembro de 1820, em Berleburg, lavrador em Lomba Grande e casado com Catarina Margarida Timm; Elisabete Gertrudis Scheffel, nascida em 1810, em Berghausen, casada com João Felipe Schweitzer; Ana Elisabeta Scheffel, nascida em 14 de setembro de 1824, em Berghausen, casada com João Jorge Timm; além de Frederico Scheffel, já nascido no Brasil.
Essa mesma linhagem também se projetaria, gerações depois, no campo artístico. A tradição genealógica associa o ramo de Cristiano Henrique Scheffel ao artista rio-grandense Ernesto Frederico Scheffel, pintor, escultor, restaurador e músico, nascido em Campo Bom, em 8 de outubro de 1927, filho de Albano João Scheffel e Hilda Jacobus.
A ligação com os Timm
O elo que conduziria a família à geração de Heinrich Anton Scheffel passa por Cristiano Henrique Scheffel, filho de Johann Christian. Nascido em 1818, em Berghausen, Cristiano Henrique casou-se em primeiras núpcias com Ana Elisabete Gertrudis. Depois, em 30 de junho de 1850, uniu-se a Maria Cristina Timm, nascida em 1826, em São Leopoldo.
Maria Cristina era filha de João Henrique Timm e Catarina Kofoth, sobrenome que também aparece em variações próximas como Kofod. A família Timm pertence ao conjunto de pioneiros ligados aos primeiros anos da imigração alemã no Rio Grande do Sul, com presença associada à chegada dos colonos a São Leopoldo, em 25 de julho de 1824, data considerada marco inicial da imigração alemã no estado. Desse casamento entre Cristiano Henrique Scheffel e Maria Cristina Timm nasceu a geração que aproximaria definitivamente o sobrenome Scheffel da região de Taquara e, posteriormente, de Parobé.
Heinrich Anton Scheffel e Johanetha Bauer
Foi dessa base familiar formada por imigrantes chegados em 1824 e 1825 que nasceu, em 10 de abril de 1852, Heinrich Anton Scheffel. Integrante da primeira geração da família nascida no Brasil, ele aparece em registros posteriores também com o nome aportuguesado Henrique Scheffel e, em alguns casos, com o uso prático de seu nome do meio, Antonio.
Do outro lado dessa história está Johanetha Bauer, nascida em 28 de agosto de 1859. Nos registros ligados aos filhos, seu nome surge com diferentes grafias, como Janetta, Janeta, Jeanetta e Jeanete, variações comuns em documentos do final do século XIX e início do século XX. O sobrenome Scheffel também aparece com formas como Scheffer, Sheffel e Schäffel, resultado da transcrição fonética feita por escrivães e oficiais de registro.
Os registros localizados apontam a união familiar de Heinrich Anton e Johanetha na região de Taquara, município que, naquele período, abrangia administrativamente a área onde hoje está Parobé. Há referência a matrimônio em 1885, mas essa data deve ser tratada com cautela, pois alguns filhos aparecem documentados antes desse ano. Essa diferença pode indicar casamento religioso anterior, registro civil tardio, união já existente antes da formalização localizada ou lacunas ainda não esclarecidas na documentação.
A descendência documentada
A vida do casal resultou em uma descendência numerosa, registrada em diferentes documentos civis. Entre os filhos e descendentes associados a Heinrich Anton Scheffel e Johanetha Bauer, aparecem:
João Miguel Scheffer, nascido em 1876. Sua data de nascimento anterior ao casamento civil localizado em 1885 é um dos pontos que merecem atenção em futuras pesquisas.
Adolphina Scheffel (1880–1965), falecida em 29 de abril de 1965, em Parobé, aos 84 anos. Seu registro de óbito é especialmente importante porque confirma sua filiação a Henrique Scheffel e Jeanetta Scheffel, ambos já falecidos, e informa que o declarante foi seu próprio irmão, Avelino Scheffel. O documento também registra que ela não deixou filhos nem bens a partilhar.
Auguste Amalie Scheffel, nascida em 1887, integrante da mesma geração familiar documentada nos registros civis da região.
Balduino Frederico Scheffel (1889–1969), cujo registro de nascimento é uma peça valiosa para a genealogia da família. O documento informa que ele era filho legítimo de Henrique Scheffel e Janetta Scheffel, e menciona nominalmente seus avós: pelo lado paterno, Henrique Scheffel e Christina Timm; pelo lado materno, Pedro Bauer e Anna Catharina Bauer. Balduino faleceu em 29 de julho de 1969, em Três Coroas, aos 79 anos.
Theobald Scheffel, também registrado como Teobaldo Scheffel, nascido em 1890. Avelino Scheffel (1892–1977), personagem importante na preservação documental da família, pois aparece como declarante no óbito da irmã Adolphina.
Alwine Emilie Scheffel (1896–1983), a caçula entre os filhos identificados até o momento.
O trabalho manual, presente na trajetória familiar desde o imigrante Johann Christian Scheffel, também deixou marcas em Parobé. Na cidade, essa herança ganhou forma por meio da lembrada Carpintaria dos Scheffel, ligada a nomes como Avelino e Teobaldo. A oficina ficava na Rua João Mosmann, quase em frente à rótula com a Rua Dr. Legendre. Ali eram fabricadas rodas para carretas, equipamentos para atafonas e outros produtos de madeira, peças fundamentais para a vida rural e para o desenvolvimento econômico da comunidade.
O descanso final no Cemitério Luterano
A trajetória de Heinrich Anton Scheffel foi encerrada de forma precoce. Ele faleceu aos 44 anos, em 23 de agosto de 1896, segundo sua lápide. Johanetha Bauer Scheffel sobreviveu ao marido por quase duas décadas. Faleceu em 13 de dezembro de 1915, após acompanhar o crescimento dos filhos e a consolidação da presença da família na região.
Hoje, a antiga lápide de pedra escura preservada no Cemitério Luterano de Parobé, com os nomes grafados como “Henrique Sheffel” e “Janetta Sheffel”, permanece como documento material dessa trajetória. A lápide testemunha a passagem de uma família que liga a imigração alemã de 1824 e 1825 à formação social, religiosa e econômica de Parobé e região.
Crédito da foto da lápide:
Élen Waschburger
Fontes:
BRAUN, Felipe Kuhn. Imigrante Johann Christian Heinrich Scheffel. Memória do povo alemão, 24 abr. 2011. Disponível em: https://memoriadopovoalemao.blogspot.com/2011/04/imigrante-johann-christian-heinrich.html. Acesso em: 7 set. 2026.
FAMILYSEARCH. Johann Christian Scheffel (1786–1855). Árvore Familiar FamilySearch, [s. d.]. Disponível em: https://www.familysearch.org/pt/tree/person/details/9VCJ-Y54. Acesso em: 7 set. 2026.
REGISTRO CIVIL DE MUNDO NOVO. Registro de nascimento de Balduino Frederico Scheffel. 1º Distrito de Paz da Paróquia do Senhor Bom Jesus do Mundo Novo, Rio Grande do Sul. Livro de nascimentos, p. 46, 19 ago. 1889. Disponível no Family Search.
REGISTRO CIVIL DE TAQUARA. Registro de óbito de Adolphina Scheffel Diesel. Distrito de Parobé, Taquara, Rio Grande do Sul. Livro C-6, fl. 41, óbito n. 1.350, 30 abr. 1965. Disponível no Family Search.
REGISTRO CIVIL DE TAQUARA. Registros de óbito de Avelino Scheffel e Alwine Emilie Scheffel. Distrito de Parobé, Taquara, Rio Grande do Sul, 1977 e 1983. Disponível no Family Search.
REGISTRO CIVIL DE TRÊS COROAS. Registro de óbito de Balduino Frederico Scheffel. Três Coroas, Rio Grande do Sul. Registro n. 1.714, 29 jul. 1969. Disponível no Family Search.
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